O resgate da criatividade perdida na fase adulta guia uma viagem no tempo hilária e comovente, costurando relatos íntimos que fazem o público rir e chorar na mesma medida.
O mergulho no passado e em nossos arquivos mais secretos pode ser a chave para destravar o futuro. É a partir de um profundo bloqueio criativo que durou anos que a artista Nicole Musafir constrói a dramaturgia de “Pra Quem Não Me Conhece”, espetáculo que acaba de ganhar sobrevida após lotar suas sessões de estreia. Retornando ao palco da Casa de Cultura Laura Alvim, a montagem propõe uma catarse coletiva ao expor segredos guardados a sete chaves desde a infância.
O público deixou claro que, ao final da peça, não sabia mais se ria ou se chorava. E me surpreendia perceber que cada um foi tocado por um lugar diferente, muitas vezes por pontos que eu mesma nunca tinha percebido.
A narrativa acompanha a atriz enquanto ela vasculha velhos baús de lembranças, cadernos esquecidos e vivências que moldaram sua trajetória. No processo de investigação pessoal, a obra se transforma em um espelho direto para a plateia. Acompanhada ao vivo pela pianista Ceci Nery, a montagem recusa definições rígidas: transita fluidamente entre o tom confessional de um diário, o ritmo de um show musical e as reflexões pontuais de um drama, operando sempre com o humor como principal fio condutor.

A criança interior no centro do palco
Com direção musical de Leo Valor e colaboração artística de Isaac Bernat, a dramaturgia amarra canções autorais e poemas escritos ao longo de décadas pela própria criadora, resgatados desde os seus seis anos de idade. Uma das músicas de destaque, intitulada “Evite Apaixonar”, foi composta quando a protagonista tinha apenas 13 anos e já tentava encontrar saídas para as inevitáveis desilusões do amor. O resultado provoca o espectador a confrontar a sua própria trajetória e a questionar os sonhos que podem ter sido abandonados com a chegada das responsabilidades cotidianas.
A conexão real e palpável gerada pela montagem teve picos de grande emoção logo na primeira temporada. Durante as apresentações iniciais, a avó da atriz, a pianista Lydia Musafir, de 91 anos, chegou a tocar pela primeira vez diante do público. O momento não apenas arrebatou a plateia, mas validou na prática uma das mensagens mais fortes do enredo: independentemente da fase da vida, nunca é tarde para experimentar algo pela primeira vez.
Feridas expostas com melodia
A nova leva de apresentações ocorre de 07 a 22 de outubro, oferecendo uma janela de entretenimento reflexivo para os cariocas no meio da semana. Temas universais como os ciclos de amizades, as paixões intensas, as perdas e as complexas transições de carreira garantem que a narrativa seja leve e de fácil identificação, mesmo quando opta por tocar em cicatrizes ainda não totalmente curadas. Afinal, como a atriz define em cena, certas verdades doem muito menos quando são ditas e escutadas através de uma boa melodia.

Serviço
- Temporada: de 07 a 22 de outubro
- Sessões: quartas e quintas-feiras, às 19h
- Local: Casa de Cultura Laura Alvim – Espaço Rogério Cardoso – Av. Vieira Souto, 176, Ipanema, Rio de Janeiro – RJ
- Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada)
- Vendas: https://funarj.eleventickets.com/#!/evento/c75d76d3b22e0367cb06d8bf56bf8a9e6e9eb9f4
- Gênero: Comédia
- Classificação: 12 anos
- Duração: 80 minutos
- Rede social: https://www.instagram.com/nicolemusafir/









