A precarização do trabalho, a violência urbana e as contradições sociais contemporâneas ganham os palcos de São Paulo na temporada da Mostra do Grupo II.
O trabalho, suas condições de realização e as relações de poder que atravessam a vida cotidiana norteiam as montagens apresentadas na Sala Multiuso do Teatro Arthur Azevedo. Após a exibição do espetáculo “Ofício”, o coletivo dá continuidade à sua programação com a apresentação de duas obras que colocam em debate temas como acessibilidade, luto, especulação imobiliária, segurança pública e o encarceramento da população negra.
A entrevista passa a funcionar como uma sequência de provações que coloca em questão os limites do que alguém está disposto a fazer para conseguir um emprego.

O processo seletivo em uma realidade distópica
Nos dias 23 e 24 de outubro, entra em cartaz a peça “Por um trabalho”, dirigida e escrita por Marcos Gomes, com atuação de Daniela Schitini e Edu Guimarães. A trama acompanha uma candidata a uma vaga em uma repartição pública precarizada, submetida à análise de materiais controversos durante uma seleção profissional.
A dramaturgia imagina um cenário ficcional no qual a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 teria sido bem-sucedida. Com uma primeira versão concebida antes da pandemia, o texto foi reestruturado a partir dos eventos políticos recentes para aproximar a precarização do trabalho e a corrosão democrática, evidenciando como a burocracia e as relações de poder atravessam o cotidiano.
Um ensaio cênico sobre violência e segurança pública
A programação segue nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro com a montagem “Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão”. Dirigido por Lucas Mayor, o espetáculo conta com atuação de Rafael Cristiano e dramaturgia de Evandro Cruz Silva, baseando-se no ensaio homônimo publicado na edição 44 da revista Serrote.
Escrita em primeira pessoa a partir de uma experiência real de assalto vivida pelo autor, a obra reflete sobre o encontro entre o homem que cometeu o delito e o policial que atendeu a ocorrência. A adaptação preserva a estrutura ensaística com cenário e figurino mínimos, estabelecendo diálogo direto com o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, do grupo Racionais MC’s, como referência estética e política sobre a formação escravista e a propriedade privada.
Dez anos de pesquisa e criação coletiva
As produções fazem parte da trajetória do Grupo II, coletivo que completou dez anos de atuação contínua em 2025. O trabalho do grupo se estrutura em eixos como a pesquisa sobre a Forma Breve, a criação coletivizada, a centralidade dos corpos dissidentes e a manutenção de espaços formativos focados em dramaturgia, montagem, crítica e performance.
Serviço
- Local: Teatro Arthur Azevedo (Sala Multiuso) – Av. Paes de Barros, 955, Alto da Mooca, São Paulo
- Ingressos: R$ 30
- Classificação indicativa: 14 anos
- Por um trabalho: 23 e 24 de outubro (sexta e sábado, às 21h) | Duração: 50 minutos | Dramaturgia e direção: Marcos Gomes | Elenco: Daniela Schitini e Edu Guimarães | Iluminação: Pablo Perosa
- Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão: 30 e 31 de outubro, às 21h; 1º de novembro, às 18h | Duração: 55 minutos | Direção, cenografia, figurino, fotografia e filmagem: Lucas Mayor | Dramaturgia: Evandro Cruz Silva | Atuação e identidade visual: Rafael Cristiano | Iluminação: Matheus Brant | Artista sonoro: Gustavo Rocha | Operação de som: Pablo Perosa | Produção: Maísa Sousa de Castro | Apoio: Espaço Garganta