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O Alienista vira sátira sobre poder e manipulação no Teatroiqué

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A linha tênue entre a autoridade científica e o delírio autoritário conduz a nova adaptação teatral que revisita a obra-prima de Machado de Assis sob o filtro do expressionismo e da crítica ao discurso hegemônico.

O médico Simão Bacamarte, vivido por Roger Gobeth, parte de uma rigorosa investigação sobre a psique para gradualmente trancafiar cidadãos na célebre Casa Verde. O conto publicado em 1882 serve de base para o projeto da CiaTeatro Epigenia, que desembarca no Teatroiqué a partir de 11 de setembro para dissecar os mecanismos de controle social por meio de termos empolados e pseudociência.

Hoje está muito mais difícil criar uma analogia distópica quando a própria realidade já parece descolada da razão.

Estética expressionista e o absurdo do discurso

Na leitura concebida pelo diretor Gustavo Paso, Bacamarte sustenta seus abusos criando jargões como “cientificismo oxidosistêmico” e “cientificismo paradoxo-sistêmico”. A reação da população, que aceita cegamente as sentenças por não compreender a linguagem imposta, espelha o cenário contemporâneo de circulação de desinformação e imposição de falsas verdades.

A montagem foge de representações de época convencionais e aposta em um universo monocromático, com referências diretas ao clássico O Gabinete do Dr. Caligari (1920). Formas assimétricas e iluminação contrastante acompanham a deterioração das liberdades na cidade de Itaguaí, em uma encenação que reúne 14 artistas entre atores e cantores.

Trajetória e reconhecimento nos palcos

Celebrando 26 anos de trajetória da companhia, o trabalho chega à capital paulista respaldado por seis estatuetas no Prêmio CENYM de 2022, vencendo categorias de destaque como Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Adaptação Teatral, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte após temporadas de sucesso pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais.

A produtora e atriz Luciana Fávero ressalta que o vigor da dramaturgia machadiana reside na sua capacidade de dialogar com as fraturas do presente, questionando os limites da obediência cega diante de quem se declara portador exclusivo da lucidez.

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