Diagnóstico tardio de autismo reposiciona obra de Flávia Teodoro Alves e amplia potência de sua poesia periférica e política
Aos 40 anos, um diagnóstico mudou o eixo de compreensão de toda uma trajetória. Para a poeta Flávia Teodoro Alves, descobrir-se autista com TDAH e altas habilidades não foi um ponto final — foi uma chave. A partir dali, sua obra passou a ganhar novas camadas, iluminando não só sua escrita, mas também os silêncios, conflitos e inquietações que sempre estiveram presentes.
Essa virada atravessa diretamente sua produção literária. Autora de dois livros de poesia e com um romance inédito em busca de editora, Flávia constrói uma escrita que não separa vida e linguagem. Pelo contrário: transforma experiência em matéria-prima estética e política.
Da Brasilândia à construção de voz própria
Nascida em Santana e criada na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, Flávia permanece até hoje na mesma casa onde cresceu. É desse território que emerge sua identidade como “escritora periférica”, termo que não apenas reivindica, mas também ressignifica.
Desde os 14 anos, a escrita aparece como ferramenta de sobrevivência. Mais do que expressão, ela funciona como mecanismo de interpretação do mundo. “Escrevo sobre temas que me atravessam como enigmas”, afirma. A literatura, nesse contexto, não organiza respostas fáceis — ela tensiona, desloca e provoca.
Essa dimensão aparece com força em seu livro de estreia, “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (2022). A obra reúne poemas marcados pela fragmentação e pela intuição, explorando afetos, rupturas e desconstruções. Ali, já se delineava uma poética que rejeita fórmulas prontas e desafia convenções.
Como definiu a poeta Lilian Sais na apresentação do livro, trata-se de uma “poética do contrário”, onde a revolta não é negação, mas transformação — um movimento ativo contra a apatia.
A escrita após o diagnóstico
O impacto do diagnóstico tardio não reorganizou apenas sua vida pessoal. Ele reposicionou toda a leitura de sua própria obra. Dificuldades antigas passaram a ganhar nome, contexto e sentido — especialmente na forma como percebe e questiona códigos sociais.
Essa perspectiva se intensifica em seu segundo livro, “Toda reza é tentativa de telecinese” (2023). Com 40 poemas, um para cada ano de vida até então, o trabalho se estrutura como uma espécie de cartografia emocional. A autora define o conjunto como “a história do pós-ruína”.
O título resume sua visão: escrever, desejar ou rezar são formas simbólicas de mover o mundo. Ainda que esse movimento não seja literal, ele é profundamente real na experiência subjetiva. A obra ganhou também versão em espanhol, ampliando o alcance de sua voz.
Entre arte, ensino e performance
A trajetória de Flávia não se limita à literatura impressa. Professora da rede pública há duas décadas, ela articula ensino, arte e pesquisa em um percurso múltiplo. Formada em Educação Artística e mestre em Artes pela Unesp, desenvolveu a dissertação “Corpoarte: felicidade e resistência”, que já indicava sua busca por integrar corpo, linguagem e política.
Essa multiplicidade se expande nas ruas e nos palcos. Como performer e atriz, assume também a persona @lambe.bem, explorando outras formas de expressão. Não por acaso, define-se como “poeta multimeios” — uma tentativa de dar conta de um processo criativo que transborda formatos.
Ao mesmo tempo, sua formação no Instituto Vera Cruz contribuiu para estruturar sua escrita em novos níveis. Foi ali que começou a desenvolver seu romance “Memórias Cintilantes de uma Cerejinha”.
Um romance atravessado pela descoberta
Inicialmente pensado como literatura juvenil, o livro acabou se transformando em uma narrativa híbrida, entre o fantástico e o autobiográfico. A protagonista, Cerejinha, funciona como alter ego da autora — uma figura que atravessa processos de amadurecimento e deslocamento.
O diagnóstico de autismo, recebido após a criação da história, trouxe uma revelação inesperada. “Agora, revejo a história e percebo que ele sempre esteve nela”, afirma. A reescrita do romance, orientada por Janette Tavano, aprofundou conflitos e complexidades sem perder o fio narrativo.
O resultado é uma obra que não apenas conta uma história, mas investiga identidade, percepção e pertencimento — temas centrais em toda a produção de Flávia.
Reconhecimento e afirmação
Em 2024, Flávia foi semifinalista do Prêmio Loba Festival na categoria Poesia Publicada. O reconhecimento tem peso simbólico: trata-se de uma premiação voltada à produção literária de mulheres.
Para a autora, o momento marca não apenas uma conquista individual, mas também um posicionamento. Ao se inscrever como autora PCD, reforça a importância de ampliar representações no campo literário.
Escrever é atacar o sentido estabelecido, o território demarcado. A estabilidade das ordens, das linguagens.
A frase, inspirada na escritora Elvira Vigna, sintetiza o gesto central de sua obra. Mais do que narrar experiências, Flávia tensiona estruturas — sociais, afetivas e linguísticas.
Entre a sala de aula, a rua e o livro, sua escrita segue como ferramenta de deslocamento. Um exercício constante de traduzir o mundo — e, ao mesmo tempo, reinventá-lo.
Serviço
- Autora: Flávia Teodoro Alves
- Livro: Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo (2022)
- Editora: Fábrica de Cânones
- Livro: Toda reza é tentativa de telecinese (2023)
- Editora: Caravana Grupo Editorial
- Prêmio: Semifinalista do Prêmio Loba Festival 2024
