A última temporada de O Talentoso Ripley ocupa o Teatro Laura Alvim até 31 de maio, com Hugo Bonèmer num papel que exige “empatia perigosa” pelo assassino mais humano do teatro carioca.
Tom Ripley nunca havia pisado num palco em língua portuguesa. Agora, após uma primeira temporada esgotada no Teatro Glaucio Gill, ele retorna — pela última vez — ao coração de Ipanema, de frente para o mar. E quem o trouxe até aqui avisa: depois disso, o personagem fica para trás.
A montagem de O Talentoso Ripley, que ocupa o Teatro Laura Alvim até 31 de maio, é dirigida por Hugo Bonèmer e Kamilla Rufino. Bonèmer também assina a cenografia, a produção executiva e protagoniza o papel-título — uma combinação rara que a co-diretora não deixa passar em branco: “As pessoas não mencionam isso bastante. O Hugo, além de diretor e protagonista da peça, foi o cenógrafo e o produtor executivo.”
Um sucesso que surpreendeu até quem o criou
A recepção do público na primeira temporada foi além do que a equipe havia calculado. Bonèmer admite que, apesar da força do título — com legiões de fãs consolidadas pelo romance de Patricia Highsmith, de 1955, e pelo filme estrelado por Matt Damon em 1999 —, o acolhimento foi inesperado. “Eu não imaginava que as pessoas iriam abraçar o nosso trabalho dessa forma”, afirma o ator e diretor.
Recentemente, a Netflix também produziu sua própria versão em série, com Andrew Scott compondo um Ripley “absolutamente doentio desde o início”. A peça carioca, porém, segue outro caminho. A base do espetáculo é a adaptação escrita em 1999 pela roteirista Phyllis Nagy — e nessa versão, Ripley não é tratado como um monstro unidimensional.
Trabalhar um personagem com a estrutura psicológica do Tom exige que eu visite lugares que, em princípio, me causam bastante desconforto. É um exercício de empatia perigoso, porque ao entender as justificativas dele, o público se vê forçado a confrontar o fato de que a distância entre o normal e o extremo é muito mais curta do que gostamos de admitir.
Hugo Bonèmer, protagonista e diretor
A dupla que nasceu durante os ensaios
Kamilla Rufino entrou no projeto como assistente de direção. Ao longo dos ensaios, Bonèmer percebeu que ela era a parceira ideal para estar à frente da peça — e fez o convite com cuidado. “Ele veio com muita humildade, me perguntou se eu queria e falou: ‘Eu ia fazer uma surpresa, só que também era importante perguntar para ver se você queria isso'”, relembra ela, que aceitou na hora.
Para a atriz Guilhermina Libanio, que interpreta Marge e Sophia no espetáculo, essa combinação entre um homem e uma mulher na direção teve efeito direto sobre os personagens. “Eu acho que a colaboração dele com a Kamilla foi fundamental para ter essa visão de mundo, de uma mulher e de um homem na direção. Isso contribuiu muito para a força de todos os personagens na peça”, analisa.
Guilhermina também destaca o método de trabalho da dupla: liberdade e atenção em igual medida. “Eu adoro a forma como eles pensam as cenas imageticamente, mas também nos deixam muito livres para viver, estar presente, sentir as emoções e aproveitar a troca ali no ao vivo.”
Suspense e terror: um gênero raro nos palcos cariocas
Guilhermina não esconde as expectativas para o encerramento desta temporada. Ela aponta que o espetáculo preenche uma lacuna no teatro brasileiro: o suspense com tintas de terror — um gênero que ela própria raramente encontrou nos palcos ao longo da carreira.
A gente espera que as pessoas vejam a peça, porque está muito linda, muito interessante, muito instigante. É um estilo que a gente não vê tanto no teatro, essa coisa meio suspense, meio terror. Espero casa cheia todos os dias até o final de maio, porque a peça é linda e merece.
Guilhermina Libanio, atriz
Ao lado de Bonèmer e Guilhermina, o elenco reúne Francisco Paz como Richard Greenleaf, João Fernandes nos papéis de Marc e Freddie, Cassio Pandolfh como Herbert Greenleaf e Tenente Roverini, Laura Gabriela como Emily Greenleaf e Tia Dottie, e Tom Nader nos papéis de Red, Fausto e Silvio.
Depois de Ripley, o que vem por aí
Esta é, de fato, a despedida definitiva do espetáculo. Bonèmer já tem o olhar voltado para o segundo semestre, com projetos no teatro e no cinema. O único lançamento confirmado até agora é a série Amor da Minha Vida, do Disney+, cuja primeira temporada foi ao ar em 2024.
Por ora, Ripley ainda está vivo — e tem até o fim de maio para convencer o público de que, no fundo, não somos tão diferentes dele.
Serviço
- Espetáculo: O Talentoso Ripley
- Local: Teatro Laura Alvim — Av. Vieira Souto, 176, Ipanema, Rio de Janeiro (RJ)
- Temporada: 1 a 31 de maio de 2025
- Sessões: sextas e sábados às 20h; domingos às 19h
- Duração: 1h50min
- Classificação etária: 18 anos
- Lotação: 190 lugares
- Ingressos: a partir de R$ 35,00
- Venda: https://funarj.eleventickets.com/#!/apresentacao/4aa57e9e6ccd16716516a196eefc9f9a49fd005c








