Um painel de 14,4 metros de extensão transforma a Galeria do Lago, no Museu da República, em um percurso visual sobre memória, tempo e esquecimento. A partir de 13 de junho de 2026, o público poderá visitar gratuitamente “O Jardim da Memória”, nova exposição do artista carioca Rodrigo Borges, que apresenta sua obra mais ambiciosa até agora.
O trabalho central ocupa quase toda a extensão da galeria: são 1,50 metro de altura por 14,4 metros de comprimento, construídos com técnica mista que combina desenho e texto. Ao redor, 24 estudos preparatórios em grafite ajudam a revelar o processo de criação da obra, desenvolvido ao longo de mais de dois meses de trabalho contínuo em ateliê.
Uma travessia visual pela memória
Em “O Jardim da Memória”, Rodrigo Borges constrói uma narrativa que acompanha uma personagem simbólica: a Memória, representada por uma criança que adentra o jardim do museu em busca de uma lembrança perdida. Ao longo desse percurso, a lógica se dissolve — passado e presente se misturam, escalas se alteram, e o que parecia familiar começa a se transformar.
O ambiente evolui gradualmente: flores dão lugar a fungos, estruturas arquitetônicas se desfazem, e a percepção do espaço se torna instável. Mais do que contar uma história linear, o painel propõe uma experiência sensorial, em que a imagem se constrói em camadas e exige tempo de observação.
Elementos reais do Museu da República — como o portão, o relógio, a cadeira e a própria fachada do palácio — aparecem incorporados à narrativa, criando uma ponte entre o espaço físico e o universo ficcional desenhado pelo artista.
Entre delicadeza e melancolia
Sob a aparência delicada e atmosférica das imagens, a obra carrega um núcleo conceitual denso. Borges investiga duas formas de morte: a biológica e aquela provocada pelo esquecimento. É nesta segunda que se concentra a tensão principal do trabalho.
“A segunda é o que me interessa. Até quando você consegue enganar a morte? O quão longe você consegue que seu legado sobreviva sem você?”
O artista amplia essa reflexão ao afirmar: “Só morremos de fato quando alguém para de falar o nosso nome”. A frase ecoa como eixo conceitual da exposição, que não busca respostas fechadas, mas abre espaço para múltiplas interpretações.
Essa ambiguidade também aparece na construção visual do painel. Há um contraste constante entre a suavidade dos traços e o peso simbólico do conteúdo — uma tensão que, segundo o artista, é central em sua pesquisa.
“Existe um contraponto interessante entre a delicadeza das imagens e o simbolismo melancólico do visual e do texto”
Escala inédita na trajetória
“O Jardim da Memória” marca um novo momento na produção de Rodrigo Borges. Esta é sua segunda exposição individual, sucedendo “A Floresta que Habito”, realizada em 2025 na Galeria Iconic, no Rio de Janeiro.
Se o trabalho anterior já apontava para investigações sobre tempo, mito e imagem, a nova exposição amplia essas questões em escala e ambição. O painel apresentado no Museu da República representa a maior obra já realizada pelo artista, tanto em dimensão quanto em complexidade narrativa.
A curadoria é assinada por Isabel Portella, que acompanha a construção desse projeto que articula desenho, texto e espacialidade em uma experiência imersiva.
Uma pesquisa construída no grafite
Formado em Design Gráfico pela PUC-Rio, com especialização em animação, Rodrigo Borges desenvolve uma prática que transita entre desenho, ilustração e motion design. Em seu trabalho, o grafite não aparece apenas como técnica, mas como um elemento estrutural de pensamento.
Influenciado pelo Art Nouveau, pelo Simbolismo e pela mitologia nórdica, o artista constrói imagens densas, onde figuras, elementos orgânicos e arquiteturas imaginárias surgem como fragmentos de narrativas abertas. Sua produção opera em um território entre sonho e memória, explorando o que se revela lentamente — nunca de forma imediata.
Ao insistir em processos manuais em um contexto marcado pela aceleração digital, Borges investiga a permanência do gesto e da matéria. O grafite, em sua obra, se torna uma superfície de acúmulo e erosão, onde o tempo deixa marcas visíveis.
Antes desta mostra, seu trabalho já havia integrado publicações internacionais voltadas à ilustração e tipografia, além de exposições coletivas na Arch Enemy Arts, na Filadélfia.
Serviço
- O Jardim da Memória, de Rodrigo Borges
- Inauguração: 13 de junho de 2026
- Período de visitação: de 13 de junho de 2026 a 6 de setembro de 2026
- Local: Galeria do Lago – Museu da República
- Endereço: R. do Catete, 153 – Catete
- Horário de visitação: De terça a domingo, das 11h às 17h
- Grátis. Livre.
- Artista: Rodrigo Borges
- Curadoria: Isabel Portella
- Montagem: Adriano Trindade
- Instagram: https://www.instagram.com/paralelo_zero









