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Paranóia transforma poesia em experiência sensorial

Paranóia transforma poesia em experiência sensorial

Marcelo Drummond leva “Paranóia” a BH com poesia, música e imagens em cena, revelando a cidade como corpo vivo e erótico no palco

Uma cidade que pulsa como um corpo vivo, atravessada por desejo, vertigem e excesso. É essa atmosfera que invade o palco em “Paranóia”, espetáculo do Teatro Oficina Uzyna Uzona que chega ao Sesc Palladium, em Belo Horizonte, para quatro apresentações entre os dias 8 e 10 de maio.

Conduzido por Marcelo Drummond, o trabalho nasce da obra homônima do poeta Roberto Piva, referência incontornável da poesia contemporânea brasileira. Publicado em 1963, o livro tornou-se cult ao captar uma São Paulo subterrânea e libertária, onde o urbano e o desejo se misturam sem freio.

Poesia que vira corpo em cena

Em vez de uma adaptação convencional, “Paranóia” assume forma híbrida. A montagem se estrutura como um espetáculo multimídia, onde poesia, música ao vivo, luz e projeções constroem uma experiência sensorial contínua.

Os versos de Piva ganham voz e presença no corpo de Marcelo Drummond, enquanto a trilha sonora de Zé Pi e o piano de Júlia Toledo criam uma atmosfera que oscila entre o lírico e o pulsante. Ao mesmo tempo, as imagens assinadas por Cecília Lucchesi e Igor Marotti dialogam com referências do cinema marginal e das artes visuais.

A cena ainda incorpora a intervenção caligráfica de Sonia Ushiyama, que transforma a escrita em gesto performático. O resultado é um fluxo contínuo, onde palavra, imagem e som se entrelaçam sem hierarquia.

Um solo que nasceu de celebração

O espetáculo ocupa um lugar particular na trajetória de Marcelo Drummond. Ele surgiu como uma espécie de pausa dentro da grandiosidade típica do Teatro Oficina, conhecida por montagens coletivas e expansivas.

“Esse projeto nasceu quando eu completei 25 anos de Teatro Oficina. Para celebrar esse momento, eu senti a necessidade de fazer algo solo, uma montagem menor que não tivesse tanta gente envolvida como é o costume do Oficina. Escolhi Paranoia, esse livro de poesia do Roberto Piva, editado em 1963 – uma obra muito cultuada pelos poetas e apreciadores da nossa literatura. É um texto explosivo, forte. Ele relata uma cidade que não cabe em quadras. Ela é apresentada como um corpo vivo, erótico.”

Desde sua estreia, em 2011, “Paranóia” percorre diferentes espaços, mantendo-se como uma peça viva dentro do repertório do grupo. Ao longo dos anos, a montagem se consolidou como um dos trabalhos mais íntimos e experimentais do Oficina.

O encontro com Belo Horizonte

A passagem por Belo Horizonte não é casual. Marcelo Drummond destaca a relação afetiva com a cidade e, sobretudo, com o público local, conhecido por sua escuta atenta e engajamento crítico.

“Trazer esse espetáculo para Belo Horizonte é uma oportunidade muito gratificante. Tenho muito carinho por esta cidade e sinto que é um sentimento recíproco. O público de BH é muito atento, pensante e gosta de ser atravessado pela arte de uma forma que é muito cativante para nós artistas”.

Essa troca ganha ainda mais intensidade em um espaço como o Teatro de Bolso Júlio Mackenzie, com capacidade reduzida e proximidade direta entre artista e plateia. Ali, cada palavra e cada gesto reverberam de forma mais crua.

Ao final, “Paranóia” não se limita a narrar uma cidade — ele a faz emergir diante do espectador. Uma cidade fragmentada, erótica e inquieta, que ecoa muito além de São Paulo e encontra ressonância em qualquer grande centro urbano.


Serviço


Paranóia transforma poesia em experiência sensorial
Foto: Michele Manoel
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Foto: Michele Manoel
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