A Escola de Artes Visuais do Parque Lage se transforma em território de memória e espiritualidade neste fim de semana com a chegada de “A Voz do Ancestral: a origem, o terreiro e a cidade”. A performance ritual itinerante, com entrada gratuita, propõe uma experiência sensorial e simbólica que conecta ancestralidade, cultura afro-brasileira e o espaço urbano do Rio de Janeiro.
As apresentações acontecem no sábado (6) e domingo (7), sempre a partir das 15h, e marcam o encerramento de um percurso que, ao longo de dois meses, ocupou diferentes pontos históricos da cidade. No Parque Lage, a narrativa ganha um novo desdobramento ao se integrar à paisagem da Mata Atlântica.
Um percurso pela memória da cidade
Antes de chegar ao Parque Lage, “A Voz do Ancestral” percorreu locais fundamentais para a compreensão da presença afro-brasileira no Rio. O trajeto incluiu o Cais do Valongo, com “Ruína-Semente: a origem”, a Feira de Antiguidades da Praça XV, com “Exu Passeia no Mercado”, a Praça Mauá, com “Pequena África: Candombless e Carnavais”, e o Museu da República, com “Corpo-território-nagô: a arte e o sagrado”.
Cada espaço trouxe uma nova camada narrativa, explorando diferentes dimensões da experiência negra na cidade — da chegada forçada durante a diáspora até a construção de territórios culturais e religiosos que seguem vivos até hoje.
O mito que guia a encenação
No Parque Lage, a performance evoca o mito “O que as folhas cantam”, inspirado livremente na obra da Yalorixá Mãe Stella de Oxóssi. A narrativa acompanha o Orixá Ossaiyn, figura central na cultura nagô e divindade associada à floresta e ao conhecimento das folhas.
A escolha do ambiente não é casual. Em meio à vegetação, a encenação reforça a importância da natureza como elemento essencial nos cultos de ancestralidade, destacando o papel das folhas como veículo de saber, cura e conexão espiritual.
Na lógica simbólica apresentada, a natureza não é apenas cenário, mas origem e destino. Ela estrutura modos de existir, pensar e celebrar, funcionando como elo entre passado, presente e futuro.
O terreiro como reconstrução do mundo
A performance também aborda o surgimento dos terreiros de Candomblé como espaços de reconstrução após a diáspora negra. Mais do que locais religiosos, os terreiros são apresentados como territórios de resistência, reinvenção cultural e reorganização comunitária.
Ao longo da encenação, o corpo do iniciado e a chamada Voz do Ancestral conduzem o público por uma narrativa que articula espiritualidade, memória e cidade. Essa construção reforça a ideia de que a cultura afro-brasileira não apenas sobreviveu, mas se expandiu e se transformou em diálogo constante com o espaço urbano.
A chegada ao Parque Lage simboliza o fechamento desse arco narrativo, conectando origem mítica, desenvolvimento dos terreiros e sua presença na dinâmica contemporânea do Rio de Janeiro.
EAV Parque Lage como palco simbólico
Reconhecida como uma das principais escolas de arte do Brasil e da América Latina, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage tem papel fundamental na formação de artistas e no estímulo à produção contemporânea. Com mais de 50 cursos em áreas criativas, a instituição atua como espaço de experimentação e reflexão.
Em 2025, a escola celebrou seus 50 anos com uma programação especial, reforçando sua relevância histórica e cultural. Receber uma performance como “A Voz do Ancestral” amplia esse diálogo ao integrar arte, ancestralidade e território em uma mesma experiência.
Serviço
- “A Voz do Ancestral: a origem, o terreiro e a cidade”
- Sábado (6) e domingo (7)
- 15h
- Entrada gratuita
- EAV Parque Lage – Rua Jardim Botânico, 414 – Jardim Botânico

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