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Pàulla Scàvazzini leva pintura-corpo a NY e Rio

Artista brasileira inaugura duo show em Nova York e individual no Rio com pinturas que saem da tela para ocupar arquitetura inteira.

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A artista visual Pàulla Scàvazzini está em dois hemisférios ao mesmo tempo. Em Nova York, seu primeiro duo show internacional, Between Utopias and Abyss, abriu na Kaliner Gallery no dia 23 de abril. No Rio de Janeiro, a individual Língua de Fogo estreia em 27 de maio no Centro Cultural Correios. As duas mostras marcam um ponto de inflexão em sua carreira — e não apenas geográfico.

Nascida em São José dos Campos (SP) e radicada em São Paulo, Scàvazzini constrói sua prática de forma independente, com residências em Lisboa, Paris e Nova York, e obras em coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior. Sua pesquisa tensiona os limites entre arquitetura, corpo e pintura: a tinta avança das telas para paredes e pisos em instalações site-specific que transformam o espaço expositivo em campo sensorial.

Uma galeria inteira como tela

Em Nova York, ao lado da artista americana Austin Fields (Los Angeles, 1988), Scàvazzini apresenta um conjunto de 20 trabalhos desenvolvidos durante sua residência na Residency Unlimited, uma das mais relevantes instituições artísticas dos Estados Unidos. A mostra, com curadoria de Maryana Kaliner, ocupa paredes, piso e telas em diferentes escalas.

A escolha do espaço não é casual. A Kaliner Gallery possui uma grande fachada envidraçada voltada para a rua — algo que Scàvazzini explorou de forma deliberada. “Para esta exposição, vou experimentar ao máximo a minha pesquisa de escala, estirando a pintura do menor formato a grandes dimensões, pintando uma galeria inteira, aberta ao público, algo que quase nunca encontro — e muito menos em uma galeria em NY com uma grande fachada envidraçada voltada para a cidade”, afirma a artista.

As pinturas de Scàvazzini dialogam diretamente com as esculturas em vidro de Austin Fields: as telas operam como paisagens em expansão, enquanto as esculturas aparecem como fragmentos dessas mesmas paisagens, encapsuladas em forma tridimensional. O conjunto funciona como um organismo único.

O corpo antes do intelecto

Para Scàvazzini, pintar é um ato físico antes de ser intelectual. É o corpo inteiro em movimento, não apenas a mão, que conduz a imagem. Ela descreve o processo como “quase uma psicografia pictórica” — um estado em que a mente se retira e o gesto registra o tempo de execução no plano.

Entendo o ato de pintar como uma prática do corpo inteiro — quase uma psicografia pictórica, no sentido de que não é a mão que decide a imagem, mas o corpo que a conduz enquanto a mente se retira. Cada pincelada registra um tempo de execução que é físico antes de ser intelectual. É catártico.

Essa abordagem se manifesta também nos títulos das obras, pensados como micro poesias sinestésicas: vento desértico; fogueira de sal; precipício, suspiro; tudo o que brilha ao norte e derrete em festa ao sul. Cada título convoca cheiro, temperatura e memória antes mesmo que os olhos encontrem a imagem.

Língua de Fogo no Rio

No Rio de Janeiro, a individual Língua de Fogo, com curadoria de Shannon Botelho, apresenta quinze trabalhos — a maior parte inédita — e funciona como desdobramento da mostra internacional. O espaço institucional do Centro Cultural Correios impõe limites mais rígidos, e é exatamente essa tensão que a artista explora: a mesma pesquisa gestual e cromática agora orientada por uma espacialidade ampliada e por um contexto de maior escala.

A exposição aprofunda o estudo da cor, das paisagens contemporâneas em colapso e da transformação da percepção do espectador. O imaginário botânico tropical — elemento recorrente em sua obra — ressurge como campo de ruína e reinvenção simultâneas, recusando qualquer leitura consoladora diante de um mundo em metamorfose.

As duas exposições partem do imaginário botânico tropical, em que paisagens se desfazem em manchas e campos de cor. Essa dissolução da imagem é também uma recusa em oferecer a paisagem de um mundo em colapso como consolo, como se a arte pudesse restituir ruínas. O que me interessa é uma pintura que permaneça nessa tensão, e que, por isso mesmo, precisa sair da tela para encontrar o corpo.

Ao ocupar Nova York e Rio de Janeiro de forma simultânea, Scàvazzini afirma a pintura como linguagem viva — capaz de reorganizar o espaço, tensionar o olhar e propor novas formas de imaginar e habitar o mundo.


Serviço

Pàulla Scàvazzini leva pintura-corpo a NY e Rio
Foto: Erika Garrido
Pàulla Scàvazzini leva pintura-corpo a NY e Rio
Foto: Erika Garrido
Pàulla Scàvazzini leva pintura-corpo a NY e Rio
Foto: Erika Garrido
Pàulla Scàvazzini leva pintura-corpo a NY e Rio
Foto: Erika Garrido
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Foto: Erika Garrido
Pàulla Scàvazzini leva pintura-corpo a NY e Rio
Foto: Erika Garrido
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