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Peça infantil no Rio usa memória de aluna com glaucoma para falar de diferença

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Inspirada em uma aluna real que nasceu com baixa visão, a peça “Luz do Sol” transforma a rotina de uma creche em uma jornada sobre acolhimento, medo e crescimento, dos primeiros passos até a vida adulta.

Toda vida começa no escuro. Toda história também. É com essa frase que o público é recebido no espetáculo, que acompanha a trajetória de Júlia, uma menina que nasceu com baixa visão e chega, ainda bebê, a uma creche recém-inaugurada depois de duas cirurgias e um transplante. Ao lado dos colegas Bento, Clara e do birrento Epaminondas, ela precisa aprender a lidar com o medo, a perda e a descoberta do próprio corpo — temas que a peça não evita, mas também não trata com peso.

Uma creche real por trás da ficção

A montagem é assinada por Adyr de Paula, dono de uma creche no Rio de Janeiro chamada “Ensina-me a Viver”, em homenagem à peça de teatro que mais admira. Foi o convívio diário com os alunos que deu origem ao texto, segundo o próprio autor, que estreou na dramaturgia em 2023 com “Aos Sábados”, peça baseada na história de sua família.

A protagonista também tem raízes na vida real. A inspiração para Júlia veio de uma ex-aluna que chegou à escola com pouco mais de um ano de idade, logo após a inauguração, e que tinha glaucoma congênito bilateral. O próprio autor faz questão de situar os limites entre realidade e ficção.

“Luz do Sol” é uma obra de ficção baseada livremente em situações e pessoas reais, principalmente no que se refere à trajetória da sua protagonista.

Ainda que a inspiração seja concreta, a peça não se propõe a reconstituir uma biografia. O objetivo declarado é falar sobre diversidade e educação inclusiva a partir de uma trajetória singular, sem transformar a personagem em símbolo genérico de deficiência.

Corpos que envelhecem diante da plateia

Um dos desafios centrais da encenação, assinada por Mariana Consoli, foi resolver cenicamente a passagem do tempo: os mesmos atores interpretam os personagens desde bebês até a vida adulta, sem trocas de elenco. A solução encontrada pela direção não passou por figurino ou maquiagem, mas pelo próprio corpo em cena.

Segundo a diretora, o trabalho corporal começa com um corpo desequilibrado e curioso, ainda descobrindo o espaço ao redor. Depois, a infância ganha agitação e impulsividade, até que, aos poucos, esses corpos encontram organização, centro e presença — culminando na vida adulta. Mais do que marcar idades, a proposta é traduzir fisicamente os estados de cada fase do desenvolvimento.

O que significa enxergar o outro

Para Mariana Consoli, que também assina a colaboração dramatúrgica, o espetáculo não busca reproduzir literalmente a experiência visual de Júlia. A intenção é ampliar a própria ideia do que significa enxergar, usando a baixa visão como ponto de partida para falar de pertencimento e acolhimento.

Com canções originais, capoeira e balé em cena, o espetáculo aposta na leveza e no humor para tratar de temas como luto, separação dos pais e adaptação escolar sem se afastar do universo infantil. A promessa é um final que só se revela para quem chega até o fim da sessão de 60 minutos.


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