A harmonia das teclas e o compasso dos tambores tradicionais mostraram como a musicalidade de raiz pode ressignificar a sonoridade do piano erudito no centro histórico fluminense.
A união sonora do Duo Teclas Percutidas desafiou convenções ao ocupar a Sala Multiuso do Museu da Justiça nesta sexta-feira, 4 de setembro. Em parceria com o programa Recitais Unirio, a pianista Verónica Fernandes e o percussionista Anderson Vilmar apresentaram um repertório que traduz os ritmos do Jongo da Serrinha em diálogo com a percussão, arrancando aplausos de pé da plateia.
Eu sempre fui apaixonada pela dimensão rítmica do piano, que é um instrumento de cordas percutidas. Então, isso sempre me fascinou muito e, como sou portuguesa, um dos motivos para vir para o Brasil também foi estudar essa dimensão rítmica do Jongo. Trazer isso para o piano é um sonho.

Das pesquisas acadêmicas à cadência dos tambores
A concepção do projeto tem raízes na pesquisa de mestrado finalizada por Verónica em 2023. O estudo analisou a dança e a percussão do Jongo da Serrinha, manifestação cultural com origens em terras hoje pertencentes a Congo e Angola, introduzida no Brasil por africanos escravizados que trabalhavam nos cafezais do Vale do Paraíba.
Durante a transposição dos tambores para a estrutura melódica do piano, o encontro entre Verónica e Anderson consolidou uma parceria que logo ultrapassou o jongo, absorvendo referências de outros gêneros tradicionais, como o frevo e o maracatu.
Repertório de raiz e a escuta das novas gerações
No programa musical apresentado, canções tradicionais como Bendito, Pisei na Pedra e Eu Chorei ganharam novos arranjos ao lado de versões de Alguém Me Avisou, clássico assinado por Dona Ivone Lara. O encerramento foi marcado pelos versos emblemáticos de Canto das Três Raças, canção consagrada na interpretação de Clara Nunes.
Entre os presentes estavam turmas do 6º ao 9º ano da Escola Municipal Rivadávia Corrêa, situada na região central do Rio. Formado por estudantes que tiveram bom desempenho escolar no período letivo, o grupo reagiu de forma espontânea à performance. Richard, que estuda cavaquinho, observou a complexidade dos movimentos rápidos exigidos pelas teclas e vislumbrou a possibilidade de combinar o instrumento popular ao piano. Já a estudante Maria Luiza relatou ter chorado com a sensibilidade dos solos, que trouxeram recordações afetivas de sua mãe.
