Um banco de dados de profissionais negros chega ao Rio e confronta a exclusão nos bastidores da cultura com ação direta e pública.
A pergunta que dá nome ao projeto — Tua Ficha Tá Preta? — não é retórica. Ela aponta para uma ausência estrutural nas artes brasileiras: a invisibilidade de profissionais negros fora do palco. Agora, essa provocação ganha corpo no Rio de Janeiro com uma plataforma que reúne, apresenta e conecta trabalhadores pretos da cultura a oportunidades reais.
Idealizado pela produtora carioca Aline Mohamad, o projeto nasce de um incômodo recorrente. Ao longo da carreira, ela ouviu repetidamente que colegas “não conheciam” profissionais negros para compor equipes. Em vez de aceitar a justificativa, decidiu enfrentá-la com dados, visibilidade e acesso.
Depois de uma realização inicial em São Paulo, viabilizada pelo edital emergencial PROAC LAB 42/2020, o mapeamento chega ao Rio com três frentes principais: vídeos biográficos, presença digital e uma plataforma centralizadora. O objetivo é direto: eliminar a desculpa da falta de acesso e escancarar o talento já existente.
Um banco de talentos visível
No centro do projeto estão as pílulas audiovisuais “Um Pouco mais de Mim”, que apresentam 24 profissionais negros da cultura em formato de vídeo-bio. Mais do que entrevistas, esses conteúdos funcionam como portfólios dinâmicos, mostrando trajetórias, competências e áreas de atuação.
Além disso, o site https://www.tuafichatapreta.com.br e o perfil no Instagram @tuafichatapreta ampliam o alcance da iniciativa. A navegação rápida e objetiva facilita o contato entre artistas e possíveis contratantes, criando uma ponte prática entre demanda e talento.
“É comum ouvir que não conhecem um cenógrafo preto ou uma figurinista preta. Eu fico incomodada, sobretudo com o fato de só pensarem pessoas pretas para execução, nunca para a criação”, afirma Aline Mohamad.
Esse deslocamento de perspectiva — do palco para os bastidores — é central. O projeto não trata apenas de visibilidade, mas de poder criativo e tomada de decisão dentro das produções culturais.
Dados que revelam o apagamento
Antes mesmo do lançamento, a iniciativa foi às ruas. Na ação “Queremos Saber”, profissionais pretos entrevistaram cerca de 700 pessoas em teatros cariocas. A pesquisa buscou medir o nível de atenção do público às fichas técnicas e identificar o reconhecimento — ou a falta dele — de profissionais negros nesses espaços.
Os resultados serão disponibilizados na plataforma e ajudam a dimensionar um problema que muitas vezes passa despercebido. Afinal, quem cria, dirige, ilumina ou veste os espetáculos raramente recebe o mesmo olhar que quem está em cena.
Para Aline, esse apagamento precisa ser enfrentado desde a origem dos projetos. “Não adianta termos pessoas pretas apenas sobre os palcos. Precisamos de cabeças pretas pensantes desde o início”, defende.
Uma pergunta que ocupa a cidade
Após o lançamento, o projeto ganha as ruas com a ação “A Grande Pergunta”. Durante cinco dias, uma interrogação preta circulará por áreas de grande fluxo no Rio. Ao mesmo tempo, totens instalados em teatros convidam o público a acessar a plataforma por QR Code.
A estratégia mistura intervenção urbana e tecnologia para ampliar o alcance da discussão. Não se trata apenas de informar, mas de provocar — e, principalmente, de gerar impacto direto na empregabilidade de profissionais negros no estado.
A criadora do projeto é direta ao apontar o cenário brasileiro. Segundo ela, o racismo velado cria uma falsa sensação de avanço. “Não estamos mais atrás de cotas, mas de equidade”, afirma. A meta, nesse sentido, vai além da inclusão pontual: busca estabilidade, reconhecimento e participação real nos projetos que movimentam a cultura no país.
Serviço
- Evento: “TUA FICHA TÁ PRETA?”
- Data: 04 de maio de 2026
- Horário: 19h
- Local: Sala Funarte Sidney Miller / Edifício Gustavo Capanema
- Endereço: Rua da Imprensa, 16 – Centro – Rio de Janeiro
- 19h às 19h30: Welcome Drink
- 19h30 às 20h30: Mesa sobre Empregabilidade Negra nas Áreas Criativas das Artes com Aline Vila Real e Drayson Menezzes
- 20h30 às 21h: Encerramento
