Resgatar vozes que foram apagadas da história é o ponto de partida do projeto Anônimas – Ciclos de Leitura, que reúne uma ampla programação gratuita para apresentar ao público cerca de 150 escritoras brasileiras dos séculos XIX e XX. A iniciativa, que começou em 2025 e segue até o fim de 2026, já movimenta escolas e espaços públicos de Curitiba com atividades que buscam corrigir lacunas históricas na literatura nacional.
Mais do que revisitar nomes esquecidos, o projeto propõe uma mudança de perspectiva: colocar a produção literária feminina no centro das discussões culturais e educacionais. Ao todo, mais de 200 rodas de leitura estão sendo realizadas, com a expectativa de impactar diretamente mais de 9 mil pessoas.
Literatura que volta a circular
As atividades acontecem em diferentes frentes da educação pública e assistência social, incluindo escolas municipais, grupos da Fundação de Ação Social (FAS), Centros de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Centros Estaduais de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJAs).
As próximas etapas da programação já têm datas definidas: entre os dias 16 e 18 de junho, as ações chegam ao Instituto de Educação do Paraná, no Centro de Curitiba. Na sequência, de 17 a 23 de junho, o projeto ocupa o Colégio Estadual Cívico Militar República Oriental do Uruguai, no bairro Capão da Imbuia.
Segundo o idealizador e produtor cultural Cristiano Nagel, a proposta é ampliar o acesso e fortalecer a representatividade. “Pretendemos impactar mais de 9 mil pessoas. Vamos democratizar o acesso à literatura escrita por mulheres e fortalecer a valorização da produção literária feminina, especialmente no Paraná”, afirma.
Leitura como experiência coletiva
As rodas de leitura são o eixo central do projeto. Organizadas em formato circular, elas transformam o ato individual de ler em uma prática compartilhada, onde participantes discutem textos, trocam interpretações e constroem novas leituras a partir do diálogo.
Essa dinâmica estimula o pensamento crítico e cria um ambiente em que diferentes perspectivas podem coexistir. Ao mesmo tempo, contribui para a formação de novos leitores e amplia o repertório cultural dos participantes.
Durante os encontros, são trabalhados textos literários e biografias de autoras fundamentais, como Maria Firmina dos Reis, considerada pioneira ao escrever o primeiro romance abolicionista de autoria negra no Brasil, e Narcisa Amália, que chegou a ser elogiada por Dom Pedro II antes de cair no esquecimento.
Destaque para autoras do Paraná
O projeto também dedica atenção especial à produção literária paranaense, trazendo à tona nomes como Júlia da Costa, apontada como a primeira poeta do estado, além de Maria Nicolas, Laura Santos, Didi Caillet, Helena Kolody e Mariana Coelho.
Essas autoras ajudam a reconstruir uma narrativa mais ampla da literatura brasileira, incluindo vozes que foram marginalizadas ou invisibilizadas ao longo do tempo. No caso de Mariana Coelho, por exemplo, sua atuação pioneira na defesa da educação feminina evidencia a dimensão política dessas obras.
Combate ao apagamento histórico
O projeto parte do reconhecimento de que muitas escritoras enfrentaram barreiras estruturais para publicar e circular suas obras. Em diferentes momentos históricos, mulheres precisaram escrever sob anonimato ou depender da validação masculina para serem reconhecidas.
Esse cenário contribuiu para que suas produções fossem excluídas de análises literárias e da memória cultural. “Suas vozes foram frequentemente subtraídas das análises literárias e da memória cultural por conta de críticas conservadoras e da falta de estímulo à época”, destaca Cristiano Nagel.
Ao resgatar essas trajetórias, o projeto busca não apenas corrigir uma ausência histórica, mas também oferecer novas referências para leitores contemporâneos, especialmente os mais jovens.
Programação amplia impacto cultural
Além das rodas de leitura, o “Anônimas – Ciclos de Leitura” se desdobra em uma série de ações complementares que ampliam seu alcance e aprofundam o contato do público com a literatura.
- Doação de livros para instituições públicas atendidas
- Ciclo de palestras com mediação de Luci Collin e participação de Glória Kirinus, Ana Rapha Nunes, Célia Cris Silva, Luciana Melamed, Lilyan de Souza e Cleo Cavalcantty
- Workshops de escrita literária ministrados por Glória Kirinus e Luci Collin
- Oficinas de mediação de leitura conduzidas por Carla Viccini
As atividades reforçam a proposta de formação cultural e incentivam a criação de novos agentes leitores, capazes de multiplicar o acesso à literatura em diferentes contextos.
“Com todas essas ações gratuitas, desejamos que mais pessoas conheçam essas e muitas outras escritoras brasileiras dos séculos XIX e XX, vejam seus trabalhos, apreciem os conteúdos dos livros e valorizem essas vozes do passado, que ainda são referências do presente”, completa Nagel.
Iniciativa com apoio institucional
O projeto é realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, por meio da Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal. A iniciativa também conta com captação da Sauí Responsabilidade Social e apoio do Colégio Positivo e da Universidade Positivo.
Serviço
- Projeto: Anônimas – Ciclos de Leitura
- Período: 2025 até o fim de 2026
- Próximas atividades: 16 a 18 de junho – Instituto de Educação do Paraná (Centro de Curitiba)
- 17 a 23 de junho – Colégio Estadual Cívico Militar República Oriental do Uruguai (Capão da Imbuia)
- Atividades: Rodas de leitura, palestras, workshops e oficinas gratuitas



