Brasil projeta bilhões no setor cultural, mas artistas periféricos seguem sem acesso. Em Salvador, o Boca de Brasa tenta mudar esse cenário.
Mercado bilionário, acesso restrito
A indústria de entretenimento e mídia no Brasil deve alcançar US$ 39,9 bilhões em 2026, o equivalente a R$ 207 bilhões, segundo o relatório “Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia 2022–2026”, da PwC Brasil. O setor abrange publicidade, jogos, música, artes cênicas e impressos, com crescimento anual composto projetado de 5,7%.
Apesar dos números expressivos, o acesso às cadeias de produção cultural permanece concentrado. Artistas das periferias enfrentam barreiras históricas que dificultam o ingresso em redes de distribuição, a obtenção de formação qualificada e a conquista de visibilidade no mercado.
Favelas movimentam R$ 300 bi, mas arte espera
Nas favelas brasileiras, a movimentação econômica estimada pelo Instituto Data Favela chega a R$ 300 bilhões. Mesmo assim, o segmento artístico ocupa posição secundária na realidade cotidiana de seus moradores. O relatório “Sonhos da Favela 2026”, do mesmo instituto, aponta que 24% dos moradores desejam “trabalhar com o que gostam” — mas a profissionalização ainda esbarra em desigualdades estruturais.
A transição do talento para a carreira formal exige acesso a recursos que, para grande parte desses artistas, simplesmente não existem: estúdios, mentoria, redes de contato e apoio institucional.
ODILLON: da periferia de Salvador ao palco nacional
O multiartista baiano ODILLON, 34 anos, representa esse universo de perto. Nascido e criado nas periferias de Salvador, ele se tornou o primeiro rapper a vencer o prêmio de Melhor Intérprete Vocal no Festival de Música da Educadora FM — uma conquista que ele associa diretamente à sua passagem pelo programa Boca de Brasa.
“A mudança no meu processo veio após o Boca de Brasa, que trouxe um amadurecimento da visão profissional do trabalho com arte e cultura. Agora eu tenho esse olhar para lidar com as situações corriqueiras, burocráticas e organizacionais de uma carreira artística.” — ODILLON, multiartista
Boca de Brasa: política pública que vira vitrine
Vinculado à Fundação Gregório de Mattos (FGM) da Prefeitura de Salvador, o Boca de Brasa articula mais de 2 mil agentes culturais nos territórios da cidade. Em 2026, o programa certificou 500 novos artistas pelos Polos Criativos Boca de Brasa, consolidando sua atuação como catalisador do ecossistema cultural baiano.
Além de ODILLON, o programa impulsionou nomes como Nega Fyah, escritora do livro “Fyah do Ódio ao Amor”; Andrezza Santos, vencedora do 23º Festival de Música Educadora FM; e o Grupo de Teatro Jaé, formado por cerca de 40 artistas com idades entre 7 e 80 anos.
“O Boca de Brasa tem como objetivo fortalecer artistas da periferia, ampliando sua visibilidade e reconhecendo que é dali que nascem a identidade e os principais movimentos da cultura soteropolitana. O projeto não inventa a roda: ele identifica, apoia e cria condições para que esses artistas mostrem seu trabalho em Salvador, na Bahia, no Brasil e no mundo.” — Fernando Guerreiro, Presidente da Fundação Gregório de Mattos
O Movimento Boca de Brasa integra o calendário cultural de Salvador como uma das principais vitrines da cena artística baiana, projetando talentos locais para os mercados regional e nacional.
Serviço
- Programa: Boca de Brasa
- Realização: Fundação Gregório de Mattos (FGM) — Prefeitura de Salvador
- Artistas certificados em 2026: 500, pelos Polos Criativos Boca de Brasa
- Agentes culturais mobilizados: mais de 2 mil
- Fonte de dados: PwC Brasil — Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia 2022–2026; Instituto Data Favela — Sonhos da Favela 2026
Foto: Divulgação







