Desenhos históricos e estudos visuais de Tarsila do Amaral, guardados longe dos olhos do público por décadas após uma única exibição em 1969, voltam ao circuito cultural para revelar a força inventiva da mestra modernista antes da pintura.
O traço silencioso e autônomo sobre o papel ganha protagonismo no acervo reunido para a mostra “Tarsila: Onde Nascem as Imagens”. São cerca de 45 estudos concebidos por Tarsila do Amaral entre 1910 e 1940, período que abrange transformações capitais em sua linguagem estética. A seleção integra uma coleção de 204 obras da artista pertencente ao empresário e artista plástico Marcos Amaro, curador da exibição sediada no Museu FAMA.
O grande mérito da exposição está em demonstrar que o desenho não ocupa uma posição secundária na trajetória de Tarsila. É nele que se encontram as origens de sua capacidade inventiva.

O tesouro mantido em gaveta trancada
Parte expressiva desse conjunto gráfico já havia integrado uma exibição no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro em 1969. Contudo, após aquele evento, o destino dos trabalhos tomou um rumo incomum: um colecionador particular decidiu mantê-los trancados em uma gaveta por anos seguidos, impedindo até mesmo o acesso da própria esposa e vetando a inclusão dos papéis no catálogo raisonné da modernista.
Longe de funcionarem apenas como esboços utilitários para futuras telas, as peças agora expostas carregam maturidade e autonomia. Revelam uma desenhista que explorava tipos humanos, sínteses fisionômicas e estruturas espaciais com agudeza gráfica incomparável.

O único autorretrato e a gênese de A Cuca
Entre os núcleos mais significativos da mostra figura o único autorretrato em desenho realizado pela pintora, datado de 1923, executado em grafite e crayon sobre papel. Outro ponto central é o estudo preparatório para a tela “A Cuca”, cujo óleo final pertence hoje ao acervo do Musée de Grenoble, na França.
Inserida nas pesquisas do ciclo antropofágico, a obra ressignificou a criatura mitológica do folclore brasileiro, convertendo a figura temida em uma presença lúdica em meio a sapos, lagartas e vegetações tropicais. O desenho em grafite traz o registro inicial dessa composição estruturada por signos genuinamente nacionais.

Cenas teatrais e projetos não concretizados
O percurso abrange paisagens, formas arquitetônicas, impressões cotidianas e concepções de figurinos e tipos humanos desenhados para um projeto teatral idealizado em parceria com Oswald de Andrade, que nunca chegou a ser encenado nos palcos. O projeto expositivo foi viabilizado por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo.
Instalado em um complexo de arquitetura fabril do início do século passado, o espaço museológico conta com 25 mil metros quadrados dedicados à arte moderna e contemporânea no interior paulista.

Serviço
- Exposição: Tarsila: Onde Nascem as Imagens
- Local: Museu FAMA
- Endereço: Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9 – Vila São Francisco – Itu/SP
- Abertura: 26 de setembro, às 12h
- Visitação: às quintas-feiras e de sexta a domingo, das 11h às 17h
- Entrada: R$ 80,00 (até 30 de novembro todos pagam meia-entrada: R$ 40,00). O bilhete único garante acesso aos Museus Asas de Um Sonho e Museu Fama, além das áreas expositivas do Centro Cultural (o Ateliê do Kobra requer bilhete à parte)
- Formas de pagamento: Dinheiro, PIX e Cartão de Crédito/Débito
- Gratuidade: Crianças até 9 anos, pessoas com deficiência (PCD), professores e museólogos (com apresentação do COREM/ICON) e guias de turismo, mediante comprovação
- Estacionamento: Carros a R$ 20,00 e motos a R$ 10,00
- Informações: https://famamuseu.org.br/
