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Reset América Latina entra na última semana no Sesc Belenzinho

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O espetáculo Reset América Latina, do coletivo Estopô Balaio, chega à sua última semana em cartaz no Sesc Belenzinho com sessões programadas até 5 de julho de 2026. A montagem marca o encerramento de uma trilogia dedicada a investigar memória, identidade e território, e se destaca como uma das criações mais ambiciosas do grupo paulistano.

Em cena, um cruzeiro de luxo chamado Sangue Latino se transforma em metáfora do continente. A partir dessa imagem central, o espetáculo articula humor, crítica política e uma construção visual potente para questionar como a ideia de América Latina foi historicamente moldada — e quais estruturas ainda permanecem em funcionamento.

Uma trilogia sobre memória e identidade

Reset América Latina é o terceiro capítulo da chamada Trilogia da Amnésia, iniciada com Reset Nordeste (2020) e seguida por Reset Brasil (2023). O projeto investiga como identidades coletivas são construídas ao longo do tempo e quais memórias acabam apagadas nesse processo.

Ao encerrar esse ciclo, o coletivo aprofunda o conceito de ancestralidade crítica, propondo uma reflexão sobre heranças culturais: o que deve ser preservado, o que precisa ser revisto e quais narrativas foram historicamente silenciadas.

Reconhecido por suas intervenções em ruas, praças e trens da CPTM, o grupo também reafirma sua capacidade de adaptação ao palco italiano — formato adotado aqui pela segunda vez — sem perder a conexão com seu território de origem, na zona leste de São Paulo.

Um cruzeiro como alegoria política

Dirigido por Eliana Monteiro, o espetáculo se estrutura como uma travessia em três movimentos. No primeiro, um musical revisita simbolicamente as grandes navegações e o projeto colonial, estabelecendo o tom crítico da narrativa.

Na sequência, o público é levado aos bastidores do cruzeiro, onde trabalhadores da cozinha, limpeza e maquinário expõem as engrenagens invisíveis que sustentam o luxo dos passageiros. É nesse deslocamento que a montagem explicita as relações de exploração que atravessam o continente.

O terceiro ato rompe com o realismo e mergulha em uma dimensão ritualística conduzida pela figura da cobra, símbolo de transformação presente em diversas cosmologias indígenas. A mudança de linguagem amplia o alcance simbólico da obra e aponta para possibilidades de ruptura e reinvenção.

Elenco e criação coletiva

Pela primeira vez, todo o elenco fixo do Estopô Balaio está reunido em cena: Ana Carolina Marinho, Juão Nyn, Dandara Azevedo, Keli Andrade e Dunstin Farias. O grupo divide o palco com os intérpretes convidados Adyel Kariú Kariri, Hayla Cavalcanti, Potira Marinho e Wescritor.

A dramaturgia é assinada por Lara Duarte, em colaboração com o coletivo. A criação musical tem direção de Dani Nega, enquanto Dudu Galvão responde pela direção de movimentos, preparação vocal e arranjos vocais.

Outro elemento marcante da montagem é sua identidade visual, construída a partir de desenhos produzidos por crianças do Jardim Romano, reforçando o vínculo do grupo com o território onde desenvolve sua pesquisa artística.

Entre humor, crítica e ruptura

A narrativa parte de uma situação aparentemente absurda: uma pane causada por uma maraca na tubulação do cruzeiro. Esse curto-circuito desencadeia conflitos entre passageiros, trabalhadores e tripulação, revelando as fissuras de um sistema sustentado por desigualdades históricas.

Ao combinar sátira, teatro político e elementos musicais, Reset América Latina investiga como projetos de dominação continuam operando no presente. Ao mesmo tempo, a obra sugere outras formas de existência e resistência, abrindo espaço para imaginar novos futuros possíveis.

Com duração de 120 minutos, o espetáculo se consolida como um dos trabalhos mais densos e complexos do coletivo, tanto pela dimensão estética quanto pela força de seu discurso.


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