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Sarah Maldoror: retrospectiva revela cinema anticolonial pioneiro

Primeira mostra abrangente da franco-guadalupense no Brasil reúne 34 obras que redefinem a história do cinema negro e feminino. Gratuito de fevereiro a março.

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O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo abre as portas para “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror”, uma retrospectiva que marca uma virada na forma como compreendemos a história dos cinemas negros e de mulheres. Com entrada gratuita e curadoria de Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon, a mostra apresenta 34 obras — 19 dirigidas pela cineasta franco-guadalupense e 15 de cineastas parceiros — de 21 de fevereiro a 22 de março.

Quem foi Sarah Maldoror

Sarah Maldoror (1929-2020) foi uma figura central do cinema anticolonial global. Filha de pai guadalupense e nascida na França, ela construiu uma filmografia revolucionária focada em movimentos de libertação africana. Seus filmes documentam e ficcionalizam as frentes revolucionárias em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, entrelaçando rigor político à sensibilidade poética e, fundamentalmente, ao protagonismo feminino nas insurreições africanas.

Seu legado não se limita a registros históricos. Maldoror questionou a forma como o Ocidente enxergava a África e as lutas anticoloniais, deslocando o olhar para a subjetividade humana e para vozes frequentemente silenciadas nas narrativas dominantes. Intelectuais como Aimé Césaire e Léopold Senghor marcaram sua trajetória criativa.

Uma mostra uma década no planejamento

“Faz dez anos que planejamos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror em São Paulo. Os filmes dela falam da luta contra o colonialismo, o racismo, o preconceito,” comenta Lúcia Monteiro, uma das curadoras. A retrospectiva também reflete uma reposicionamento mais amplo da cineasta na história do cinema, como destaca Izabel de Fátima Cruz Melo: “Acreditamos que iniciativas como essa colaboram tanto para o conhecimento do público em geral, quanto para o aprofundamento e reflexão dos críticos e pesquisadores.”

Abertura com Sambizanga restaurado

A mostra abre no sábado, 21 de fevereiro, às 16h30, com a sessão comentada de Sambizanga (1972), a obra mais conhecida de Maldoror e premiada no Festival de Berlim. Baseado em novela de Luandino Vieira, o filme segue um homem injustamente preso e torturado, suspeito de pertencer a um movimento revolucionário. A versão exibida foi restaurada, e após a sessão, Henda Ducados — economista, socióloga e filha caçula de Maldoror — participa de bate-papo com o público.

Faz dez anos que planejamos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror em São Paulo. Os filmes dela falam da luta contra o colonialismo, o racismo, o preconceito — Lúcia Monteiro, curadora

Presença de familiares e cineastas contemporâneos

Annouchka de Andrade, filha primogênita e fundadora da associação “The Friends of Sarah Maldoror and Mario de Andrade”, também marca presença. Ela participa de conferência sobre Sambizanga no sábado, 26 de fevereiro, e de debates sobre roteiros inéditos da mãe durante a mostra.

A retrospectiva estabelece diálogos entre a obra de Maldoror e cineastas negras contemporâneas. Safira Moreira, cineasta baiana, dirige a leitura dramática do roteiro inédito “As garotinhas e a morte”. A mostra também exibe seu primeiro longa-metragem, Cais (que estreou na Mostra Internacional de Cinema), e quatro curtas-metragens seus.

Filmes imprescindíveis da retrospectiva

Além de Sambizanga, a programação inclui sessões de Monangambééé (1968), curta que retrata os abusos coloniais portugueses em Angola; Aimé Césaire, um homem, uma terra (1976), documentário sobre o ideólogo da Negritude; e Uma sobremesa para Constance (1981), longa que acompanha dois trabalhadores imigrantes em Paris buscando formas de retornar para casa.

Há também a constelação de Maldoror como assistente: o clássico A Batalha de Argel (1966) de Gillo Pontecorvo e o documentário Elas (1966) de Ahmed Lallem — este com sua primeira exibição na cidade. Documentários de Chris Marker, como Sem sol (1982), contêm imagens filmadas por ela.

Cursos e aprofundamento teórico

A mostra vai além das exibições. Oferece dois cursos: “Memória e ancestralidade” com Lilian Santiago e Lúcia Monteiro, e “Restaurar arquivos em vídeo da televisão” com Nathanaël Arnould (que restaurou a obra televisiva de Maldoror no Instituto Nacional do Audiovisual francês), Eduardo Morettin (USP) e Daniela Siqueira (UFMS).

Serviço

Retrospectiva: O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror

Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico – SP

Período: 21 de fevereiro a 22 de março de 2026

Entrada Gratuita: Ingressos disponíveis a partir das 9h, no dia de cada sessão, na bilheteria do CCBB e em bb.com.br/cultura

Classificação indicativa: Consultar a classificação de cada sessão no site do CCBB SP

Funcionamento: aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças-feiras

Informações: (11) 4297-0600

Programação completa: bb.com.br/cultura

Transporte: O CCBB fica a 5 minutos da estação São Bento do Metrô. Estacionamento conveniado disponível na Rua da Consolação, 228 (R$ 14 pelo período de 6 horas, necessário validar na bilheteria). Van gratuita de ida e volta das 12h às 21h (com parada no Metrô República no retorno).

Foto: Divulgação


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