Dez instalações que cruzam arquitetura, linguagem e tensões do universo feminino ocupam cinco galerias do Centro Cultural Justiça Federal em uma retrospectiva inédita.
O encontro entre a tridimensionalidade dos ambientes e o peso poético dos vocábulos conduz a mostra “As Palavras”, da artista e poeta visual carioca Suely Farhi. Com curadoria assinada por Luiza Interlenghi, o projeto reúne criações concebidas desde 1994 até 2026, marcando a primeira vez em que a trajetória da criadora ganha um recorte focado diretamente na experiência feminina.
Suely Farhi investiga o limiar entre palavra, imagem e espaço – a linguagem transmuta a realidade. As palavras – substantivo feminino plural – desenham o invisível e aderem aos objetos para iluminar a força da mulher.

O corpo e a palavra em instalações inéditas
Entre os trabalhos apresentados ao público pela primeira vez está “Elogios às marias-sem-vergonha”. A instalação é estruturada com vasos de vidro transparentes sobrepostos e repletos de água, onde foram serigrafados adjetivos associados às mulheres. O percurso exige movimentação física ao redor das peças para a leitura completa das frases, simulando uma dança que acompanha a dispersão imaginária do vapor no ar.
Outra produção recente é o painel de 10 metros intitulado “Suspiros alfabéticos”, composto por 26 folhas de papel A2. Cada prancha traz uma letra desenhada e vincos sutis que remetem à anatomia da virilha, justapondo referências corpóreas à rigidez visual das esculturas clássicas em mármore.

Tensões históricas e a ocupação do vazio
Obras anteriores foram reconfiguradas para o espaço expositivo do Centro Cultural Justiça Federal, como “O terceiro lado”, criada originalmente em 2006. A peça resgata o estigma sobre D. Maria I por meio de moedas gravadas com as palavras “louca” e “calou”. Nesta montagem, a artista acrescentou um compartimento vazio na caixa, propondo um ponto de fuga e reflexão sobre os silenciamentos históricos impostos às mulheres.
Formada em arquitetura, Farhi explora a escala dos ambientes ao posicionar itens singulares em cômodos amplos. A obra “Geral da Geralda”, formada unicamente por uma vassoura de piaçava que parece sustentar a parede, ganha uma sala exclusiva. Em outro ponto, uma caixa diminuta de 3,5 centímetros é a única presença iluminada dentro de um espaço completamente escuro, propondo uma quebra de expectativa a partir de uma palavra isolada.
A mostra resgata ainda a instalação “A noite dos desejos”, montada com luzes de LED que simulam estrelas cadentes, e o vídeo-poema inédito “Barriga”, de 2010, que aborda o início da vida e a respiração através de transformações tipográficas na tela. O percurso inclui desenhos-escritas e o trabalho “Encontro dos extremos”, onde taças gravadas com o início e o fim do alfabeto repousam em equilíbrio sobre veludo.

Debates e ativações abertas ao público
A programação associada à mostra prevê encontros a partir de 13 de outubro de 2026. As ações incluem mediações com a curadora e a artista, mesas de debate sobre linguagem e psicanálise, além de uma rodada coletiva com o jogo “oráculo dos pensamentos”, reunindo criadores e poetas visuais convidados.

Serviço
- Exposição: “As Palavras”, de Suely Farhi
- Abertura: 13 de outubro de 2026, às 17h
- Período de visitação: de 14 de outubro a 22 de novembro de 2026
- Local: Centro Cultural Justiça Federal
- Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro – RJ
- Horário: de terça a domingo, das 11h às 19h
- Telefone: (21) 3261-2550
- Entrada: gratuita
- Curadoria: Luiza Interlenghi
- 23 de outubro de 2026, às 17h: Visita mediada com a artista Suely Farhi e a curadora Luiza Interlenghi
- 5 de novembro de 2026, às 17h: Visita com a artista seguida da conversa “Palavra como fonte transformadora”, com Daniela Mattos, Fatima Pinheiro e Mariana Pimentel
- 19 de novembro de 2026, às 17h: Jogo “oráculo dos pensamentos”, com participação de artistas convidados



