A defesa de uma tese acadêmica raramente encontra eco imediato no mundo real — mas, no caso de Guilherme de Almeida, essa conexão aconteceu em questão de semanas. O pesquisador autista viu um dos conceitos centrais de seu doutorado ganhar forma concreta na inauguração da exposição “O Brasil de Portinari”, realizada em 9 de junho no Museu Nacional da China, em Pequim, uma das instituições culturais mais relevantes do mundo.
Presidente da Autistas Brasil e diretor executivo do projeto, Almeida havia defendido, em abril de 2026, sua tese na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No estudo, ele propõe uma mudança de perspectiva sobre a presença de pessoas autistas na sociedade — uma transição que vai além da inclusão formal e aponta para o protagonismo efetivo em espaços de decisão e produção de conhecimento.
Da teoria à prática em tempo real
Entre os conceitos desenvolvidos por Almeida está o de autoria histórico-criativa. A ideia descreve o momento em que pessoas autistas deixam de ser vistas apenas como beneficiárias de políticas inclusivas e passam a atuar como agentes ativos na construção de conhecimento e na condução de projetos.
A inauguração da exposição em Pequim acabou funcionando como um exemplo direto desse conceito em ação. Como diretor executivo da iniciativa, Almeida participou da construção do projeto desde sua idealização, acompanhando sua concretização em um dos maiores museus do planeta.
“Há uma vertigem boa em ver um conceito que a gente criou voltar para dentro da própria vida”
“Na academia, na própria forma da tese: um autista teorizando e exercendo a autoria autista. E, na cultura, acompanhando a concretização de um projeto que ajudamos a construir no maior museu da China. Se a autoria histórico-criativa valeu para mim, pode servir de mapa para outras pessoas autistas”, afirma o pesquisador.
Um caso raro no cenário internacional
A presença de pessoas com deficiência em cargos de liderança em grandes instituições culturais ainda é limitada. Levantamento da Autistas Brasil aponta que, mesmo quando essas posições são ocupadas, elas tendem a ser associadas a deficiências físicas ou sensoriais — enquanto lideranças autistas em níveis executivos seguem sendo raras.
Nesse contexto, a direção brasileira da exposição “O Brasil de Portinari” reúne características pouco frequentes: uma liderança autista, atuando em um dos maiores museus do mundo e representando um país do Sul Global em uma instituição de referência internacional.
A mostra leva ao público chinês obras de Candido Portinari, em articulação com João Candido Portinari, autoridade curatorial do projeto. A iniciativa amplia o alcance da arte brasileira e, ao mesmo tempo, evidencia novas possibilidades de participação em estruturas culturais de grande escala.
Os conceitos por trás da pesquisa
Orientada pela professora Sandra Fernandes Leite, a tese de Almeida articula dois eixos principais. Além da autoria histórico-criativa, o estudo apresenta o conceito de justiça neurocognitiva, que defende o reconhecimento de diferentes formas legítimas de pensar, aprender e expressar conhecimento.
A análise parte da constatação de que, embora haja avanços no acesso de pessoas com deficiência ao ensino superior e a espaços culturais, ainda existem lacunas significativas quando se trata de participação efetiva em posições de liderança.
Segundo o pesquisador, muitas instituições ainda operam com uma lógica que limita a presença de pessoas autistas ao papel de público ou beneficiários, sem abrir espaço consistente para que assumam funções estratégicas.
Barreiras invisíveis ainda persistem
O cenário se reflete também no mercado de trabalho. Dados do A.J. Drexel Autism Institute indicam que cerca de 14% dos adultos autistas possuem emprego remunerado nos Estados Unidos. No Brasil, levantamento do Instituto Autismos, divulgado em 2025, aponta que quase 30% dos adultos autistas estão desempregados ou sem renda.
Para especialistas e organizações, esses números não estão ligados à qualificação profissional, mas a obstáculos estruturais que dificultam tanto o acesso quanto a permanência no trabalho.
Entre esses obstáculos está a chamada barreira atitudinal, definida pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) como comportamentos e percepções que limitam a participação social em igualdade de condições.
“Essa barreira tem nome: é a barreira atitudinal, e talvez seja a mais difícil de superar. Diferentemente de uma escada sem rampa, ela é invisível. Está nos pressupostos, nas expectativas rebaixadas e em processos que decidem, antes mesmo da entrevista, que a pessoa autista não vai dar conta”, afirma Almeida.
Um símbolo em meio a mudanças
A repercussão do caso ocorre em um momento simbólico. O Brasil passa a celebrar oficialmente, em 18 de junho, o Dia Nacional do Orgulho Autista, instituído pela Lei nº 15.365/2026. A data propõe uma mudança de enfoque em relação ao tradicional Dia Mundial de Conscientização do Autismo, valorizando o protagonismo e as contribuições das pessoas autistas.
Para a Autistas Brasil, a trajetória de Guilherme de Almeida dialoga diretamente com esse novo momento. Mais do que um percurso individual, o caso é interpretado como um indicativo de que a presença de pessoas autistas em espaços de liderança pode deixar de ser exceção.
A experiência conecta universidade e cultura em uma mesma linha narrativa: a de que inclusão não se limita ao acesso, mas se completa na participação ativa, na autoria e na tomada de decisões em diferentes esferas da sociedade.
Serviço
- Exposição: O Brasil de Portinari
- Data de inauguração: 9 de junho
- Local: Museu Nacional da China, Pequim
- Direção executiva: Guilherme de Almeida
- Curadoria: João Candido Portinari

