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Três gerações Mardine expõem o elo que une arte e família

Três gerações Mardine expõem o elo que une arte e família

Pinturas, esculturas e aquarelas de avô, filho e neta ocupam a Fábrica Bhering em mostra que transforma laços familiares em linguagem visual.

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Há exposições que documentam obras. E há aquelas que documentam vidas. “Os Mardines – o elo que nos une”, apresentada pela Galeria Dobra/Artnova com curadoria de Marcelo Rezende, pertence claramente à segunda categoria. Reunindo três gerações de uma mesma família, a mostra instala na Fábrica Bhering, no Santo Cristo, um diálogo improvável e ao mesmo tempo inevitável entre diferentes tempos, formações e sensibilidades.

O patriarca e a força da pincelada livre

Com mais de 80 anos e uma trajetória construída às margens do campo artístico convencional, Edson Mardine chegou à pintura pelo caminho longo — e talvez por isso mesmo chegou com tanta intensidade. Empresário que colecionou obras e percorreu museus por diversos países, ele desenvolveu um olhar de colecionador antes de se tornar criador. E esse percurso deixa marcas visíveis em cada tela.

Suas pinturas abstratas não se sustentam pela geometria, mas pela fluência. A pincelada é forte, alongada, às vezes breve — sempre com intenção. O resultado transita entre o figurativo e o abstrato sem se fixar em nenhum dos dois polos, evocando paisagens que parecem existir apenas na fronteira entre o mundo visível e algo mais etéreo, quase simbólico.

Il s’agit d’arriver à l’inconnu par le dérèglement de tous les sens — trata-se de atingir o desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos.

Arthur Rimbaud

A citação de Rimbaud, evocada na apresentação da mostra, não é gratuita. Há na obra de Edson Mardine exatamente esse impulso: ir além do que pode ser visto, usando a cor artificial e a forma livre como portais para mundos imaginados. O tangível e o sensível convivem na mesma tela, sem hierarquia.

O filho, entre a filosofia e a escultura

Edson Mardine Junior trilhou um caminho igualmente indireto. Formado em Direito e com especialização em Filosofia, construiu carreira no campo dos empreendimentos — como o pai. Mas o gosto pela abstração o acompanha desde a infância, quando já experimentava formas plásticas de modo lúdico e intuitivo. Na fase adulta, esse impulso se aprofundou na música e, mais recentemente, nas artes visuais.

Nesta exposição, ele apresenta duas esculturas marcadas pelo interesse na Bauhaus e na relação entre abstração e arquitetura. A geometrização das formas dialoga com a herança paterna — o apreço pelo colecionismo, as visitas a acervos internacionais, a construção de um olhar apurado ao longo de anos — mas encontra uma linguagem própria, tridimensional e estrutural.

A neta que une o tempo da música ao espaço da imagem

Beatriz Mardine fecha o ciclo com uma presença que surpreende pela multiplicidade. Violinista e cirurgiã dentista, ela chegou às artes visuais com a mesma precisão que a formação científica e musical exige — e com a sensibilidade que o Parque Lage soube cultivar. Suas duas aquarelas exploram a percepção do tempo e do espaço, dimensões que ela já conhece bem de outra forma: no compasso da música.

A presença de Beatriz na mostra não é apenas simbólica. Ela representa a continuidade real de uma herança que não foi imposta, mas absorvida — e reinterpretada com voz própria.

Uma exposição sobre o que se transmite

O que “Os Mardines” propõe, no fundo, é uma reflexão sobre transmissão. Não a transmissão de técnica ou estilo — cada um dos três artistas possui uma linguagem distinta —, mas a transmissão de um modo de olhar, de uma abertura ao sensível, de uma crença de que a arte vale o tempo e o esforço que exige.

Essa crença, silenciosa e persistente, é o verdadeiro elo que a exposição revela. E que Marcelo Rezende, na curadoria, soube identificar e organizar com precisão.


Serviço


Três gerações Mardine expõem o elo que une arte e família
Foto: Divulgação
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