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Velas descartadas viram obra e tensionam memória urbana

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Resíduos do mar ganham nova vida e colocam em debate o destino do que a cidade descarta — e o que escolhe esquecer.

Velas de barcos, cordas e tecidos náuticos deixam de ser rejeito para se tornarem matéria de criação em “NAU – Vento Matéria”, nova exposição de Mauricio Muniz na Galeria Lama, em Florianópolis. Com curadoria de Samantha Neves Hoffmann, a mostra reúne pinturas, objetos e uma instalação inédita que atravessa temas como navegação, política urbana e o impacto ambiental dos aterros.

No fim da sua vida útil as velas são descartadas como matéria-lixo.

Ao usar velas como suporte pictórico, Muniz desloca o olhar sobre materiais ainda úteis, mas frequentemente enviados a aterros sanitários. O próprio título da mostra nasce dessa percepção: a “matéria-vento” que move embarcações também carrega uma dimensão invisível, que só se revela quando o material se transforma em obra.

Entre o mar aterrado e a memória da cidade

O conjunto inclui três objetos e dez pinturas inéditas de grande formato, produzidas com velame descartado, tinta acrílica, massas de calafeto e tecidos usados em barcos. No centro da exposição está a instalação “Inundação”, reconstruída para dialogar com a arquitetura do espaço — antiga sede de um clube de remo.

A obra retoma uma discussão recorrente na trajetória do artista: o avanço dos aterros sobre o mar e suas consequências na geografia e na memória urbana. Já apresentada anteriormente em instituições como o Museu Victor Meirelles, a instalação reaparece agora em nova configuração, conectando passado e presente do território.

Uma arqueologia pessoal costurada em tecido

A exposição também se ancora em uma dimensão íntima. O veleiro “Terral”, adquirido por Muniz em 1986, funcionou como casa e ateliê até sucumbir às dificuldades de manutenção. Revisitar materiais náuticos é, portanto, revisitar essa história — uma espécie de arqueologia pessoal que atravessa sua produção.

Essa relação entre experiência vivida e matéria artística atravessa toda a mostra, conectando o gesto manual da costura ao tempo, ao desgaste e à transformação dos materiais.

Programação amplia a experiência

Além da exposição, o público poderá participar de uma visita guiada e de uma oficina, ampliando o contato com os processos e conceitos que estruturam o trabalho.

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