A transposição dos barracões e da Marquês de Sapucaí para a arquitetura modernista transforma processos criativos das escolas de samba em objeto central de investigação nas artes visuais.
A produção artística forjada nas quadras, oficinas e ateliês carnavalescos ganha estatuto de método e prática conceitual a partir do olhar do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Comissionando projetos inéditos a criadores em plena atuação, a mostra desloca a temporalidade e o ritmo da avenida para propor uma relação contemplativa, em que o público desacelera o passo diante da escala, dos materiais e dos procedimentos plásticos.
Ao trazer esses processos para o museu, a exposição propõe que olhemos as formas de fazer do Carnaval e sua relação com o público como exemplos para a produção artística contemporânea.
O Salão Monumental e o mezanino da instituição funcionam como arenas de diálogo direto com as dimensões monumentais dos desfiles. Ao contrapor a visibilidade do chão às perspectivas vistas do alto, a arquitetura dialoga com a própria experiência do Sambódromo, exigindo dos artistas soluções volumétricas e espaciais adaptadas ao concreto do espaço expositivo.

Obras contemporâneas e experimentação no salão
Projetos desenvolvidos especialmente para a mostra tensionam os limites entre visualidade e público. André Rodrigues, ao lado da pesquisadora Juliana Joannou, apresenta quatro figurinos brancos que sofrem transformações progressivas com a colaboração dos visitantes ao longo do período de cartaz, evidenciando as etapas da indumentária carnavalesca.
A presença feminina na construção dos cortejos ganha forma na estrutura de grande escala assinada por Annik Salmon, concebida para que o espectador observe as superfícies à distância ou explore o interior do corpo escultórico. Em paralelo, Antônio Gonzaga ergue um trabalho de grandes proporções fundamentado em motivos afro-brasileiros articulados à espacialidade do evento e às linhas do edifício.
A pesquisa de Thayssa Menezes resgata noções de patrimônio intelectual negro e memória estética das matrizes afro-cariocas. Já a dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora assina quatro trabalhos que analisam diretamente o legado de mestres da folia, decodificando sistemas de pensamento visual que estruturam a história do espetáculo carioca.
Memória gráfica e histórica dos grandes mestres
Três figuras centrais da história dos desfiles ancoram a documentação processual da mostra. O segmento dedicado a Joãosinho Trinta volta-se para o histórico enredo de 1989 da Beija-Flor, exibido na íntegra, complementado por estudos de Cláudio Urbano e registros fotográficos de bastidores captados por Valtemir Valle.
O legado de Rosa Magalhães é revisitado a partir de croquis pertencentes à Rede de Bibliotecas da UERJ, cobrindo cinco desfiles de diferentes momentos de sua produção estética. Em outra instalação, uma mesa circular homenageia Maria Augusta Rodrigues, evidenciando sua pesquisa teórica em torno da cor e enredos que desafiaram períodos de exceção no país.
O percurso é concluído com obras sobre tela e superfícies pictóricas assinadas por nomes intimamente conectados às agremiações, como Heitor dos Prazeres, Nelson Sargento, Antônio Caetano, Gisa Nogueira, João da Baiana, Mestre Saul, Miguel Moura e Raquel Trindade, revelando uma produção plástica desenvolvida fora do circuito hegemônico de galerias.
Serviço
- Exposição: Carnaval como método
- Curadoria: Raquel Barreto, Pablo Lafuente e Phelipe Rezende com colaboração de Debora Moraes e Edu Gonçalves
- Abertura: 19 de setembro de 2026
- Encerramento: 21 de fevereiro de 2027
- Horários de visitação: Quartas, quintas, sextas, sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
- Visitação para pessoas com deficiência intelectual: Domingos, das 10h às 11h
- Local: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
- Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 – Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro – RJ
- Telefone: (21) 3883-5600
- Ingressos: https://www.mam.rio/ingressos (Entrada gratuita para todos os públicos)
- Website: https://www.mam.rio/
- Instagram: @mam.rio
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