Tocar, beijar ou até mesmo se aproximar de um pavilhão exige muito mais do que apenas paixão pelo samba, envolvendo códigos rigorosos de respeito e devoção que muitos foliões ainda desconhecem.
Para o público que acompanha as apresentações e ensaios de quadra, o impulso de demonstrar carinho pelo símbolo máximo da agremiação é quase instintivo. No entanto, para quem tem a missão de conduzi-lo, cada passo e aproximação carregam um peso imenso. Beatriz Paula, atual primeira porta-bandeira do Botafogo Samba Clube e segunda do Salgueiro, vivencia essa realidade de perto e alerta que a falta de informação ainda gera situações desconfortáveis durante os eventos de Carnaval.
Na minha visão, é um ato de desrespeito. Infelizmente, na maioria das vezes, não acontece nada. A pessoa simplesmente toca. Quando tem um harmonia cuidando do pavilhão, ele pede para sair.
Situações em que pessoas tentam tirar fotos abruptamente ou tocam no tecido enquanto ele está erguido são frequentes. Segundo a dançarina, a ação muitas vezes ocorre de forma tão rápida que os profissionais da harmonia, ou até mesmo os diretores presentes, não têm tempo hábil para intervir e proteger o emblema da escola.

O ritual antes de beijar o tecido sagrado
A reverência ao pavilhão possui etiquetas muito claras e que são avaliadas rigorosamente pela porta-bandeira no momento do encontro. Apresentar a bandeira para um componente ou fã não é sinônimo de passe livre para o beijo. A postura de quem se aproxima é o fator decisivo para a autorização.
- Uso de boné: O acessório deve ser retirado obrigatoriamente. O esquecimento sinaliza falta de preparo para o momento solene.
- Vestuário: Homens vestindo bermuda podem até realizar a reverência tradicional, mas são vetados de beijar o pavilhão.
Uma vida de devoção longe da Sapucaí
As regras e o zelo não se restringem ao asfalto ou aos ensaios oficiais. O cuidado acompanha o casal dentro de suas próprias casas. O mastro nunca deve encostar no chão e o tecido não fica aberto sem necessidade. Cada etapa da manutenção, como lavar, passar e amarrar, exige uma atenção meticulosa e quase cerimonial, fruto de aprendizados compartilhados em workshops e pela vivência diária no samba.
A dimensão espiritual também é inseparável dessa trajetória. Além das orações de agradecimento e pedidos de proteção antes de cruzar a linha amarela, a dançarina adotou, há cerca de três anos, o ritual de levar a bandeira para receber a bênção de um padre antes dos festejos carnavalescos.
Você cuida, você abraça, você beija, você faz tudo. Você cuida como se fosse seu filho, como se fosse a coisa mais importante da sua vida. E não deixa de ser.
É esse nível de entrega emocional e espiritual que traduz o motivo pelo qual atitudes aparentemente banais possuem um impacto tão profundo para os defensores da bandeira. Nas mãos de quem dança, o pavilhão não é apenas um pedaço de pano costurado, mas sim a identidade viva e o sentimento de pertencimento de toda uma comunidade.
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