O avanço da economia criativa no Brasil ganha contornos cada vez mais concretos quando os números entram em cena. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Ministério da Cultura, aponta que cada R$ 1 investido em projetos culturais pode retornar até R$ 7,59 para a economia — um índice que reposiciona o setor como peça estratégica no desenvolvimento econômico e social.
Esse desempenho não é isolado. Ele acompanha um movimento global de valorização dos setores culturais e criativos (SCC), que já representam 6,1% da economia mundial, com receitas anuais estimadas em cerca de R$ 10 trilhões, segundo a UNESCO. Mais do que números expressivos, o crescimento sinaliza uma mudança estrutural na forma como cultura e economia se relacionam.
Um setor em expansão global
A tendência de crescimento da economia criativa não mostra sinais de desaceleração. Projeções da Verified Market Reports indicam que o setor deve crescer a uma taxa composta anual de 5,5% entre 2026 e 2033, impulsionado por uma demanda crescente por expressões culturais e identitárias em diferentes países.
Esse avanço não acontece apenas no campo simbólico. Relatórios internacionais, como o “The Culture Fix”, da OCDE, apontam a cultura como uma ferramenta estratégica para regeneração regional, capaz de ativar economias locais, fortalecer identidades e atrair novos fluxos financeiros.
No Brasil, esse cenário encontra terreno fértil. A diversidade cultural e a dimensão territorial criam condições únicas para que projetos culturais atuem como catalisadores de desenvolvimento em diferentes regiões.
Memória ferroviária como motor econômico
É nesse contexto que surgem iniciativas como os projetos “Estação” e “Identidades”, liderados por Preto Filho e Diego Ribeiro. Ambos percorrem os territórios da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), utilizando artes visuais — como fotografia e audiovisual — para transformar memória em ativo econômico.
Os resultados demonstram o potencial desse modelo. Com um investimento total de R$ 3,9 milhões — sendo R$ 1,8 milhão no projeto “Identidades” e R$ 2,1 milhões no “Estação” — as iniciativas geraram um retorno de R$ 29 milhões nas comunidades impactadas, incluindo cidades como Vila Velha, Belo Horizonte, Rio Piracicaba, João Monlevade e Colatina.
Mais do que números, o impacto se reflete na dinâmica local. A circulação de recursos ativa uma cadeia econômica que envolve desde pequenos fornecedores até o setor de hospedagem, criando uma rede de benefícios distribuídos ao longo do território.
Como a cultura ativa economias locais
Segundo Preto Filho, o diferencial está na forma como os projetos se conectam com as comunidades. Ao invés de intervenções externas, a proposta é gerar engajamento direto, criando identificação e pertencimento.
“É um modelo de engajamento social que promove a legitimidade e a percepção do território, estabelecendo um contato real com as comunidades por onde a Vale atua”
No caso do projeto “Estação”, esse conceito se traduz em ações práticas. Foram qualificados 80 jovens de cidades mineiras, cada um recebendo incentivo de R$ 1 mil para participação. Em um único ciclo, o projeto percorreu 172 km e alcançou cerca de 1 milhão de pessoas por meio de intervenções urbanas em sete municípios.
Já o “Identidades” seguiu uma abordagem complementar, focada na sistematização e valorização de manifestações culturais sub-representadas. A iniciativa mobilizou 175 interlocutores e resultou em um acervo de 5 mil fotografias, além da catalogação de 100 expressões culturais.
Para Diego Ribeiro, o impacto vai além da preservação cultural. Ele aponta que o reconhecimento dessas expressões gera novos fluxos econômicos e amplia a visibilidade dos territórios.
“A cultura funciona como vetor de dinamização. Ao entregarmos o livro-inventário e realizar o festival, devolvemos para as comunidades a dimensão de sua importância, atraindo novos fluxos financeiros”
Cultura como estratégia de desenvolvimento
A experiência ao longo da EFVM reforça uma mudança de paradigma: a cultura deixa de ser vista como custo e passa a ser compreendida como investimento estratégico. Ao conectar memória, identidade e economia, os projetos demonstram que o patrimônio cultural pode gerar valor tangível e duradouro.
Esse movimento também dialoga com agendas contemporâneas, como ESG (ambiental, social e governança), ao integrar impacto social, valorização cultural e desenvolvimento econômico em uma mesma estrutura.
Com continuidade prevista até 2028, as iniciativas de Preto Filho e Diego Ribeiro pretendem ampliar o número de municípios atendidos e expandir ações culturais e educativas ao longo da ferrovia, aprofundando o alcance e os resultados já observados.
Em um cenário global de crescimento da economia criativa, o Brasil mostra que sua diversidade cultural pode ser mais do que patrimônio simbólico: trata-se de um ativo estratégico capaz de transformar territórios, movimentar economias e redefinir o papel da cultura no desenvolvimento contemporâneo.




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