O personagem que ganhou o carnaval agora ocupa as ruas em defesa da liberdade religiosa. A presença de Demerson D’Alvaro, intérprete de Exu no desfile campeão da Acadêmicos do Grande Rio, coloca a 3a Marcha dos Quimbandeiros no centro do debate sobre intolerância religiosa e racismo estrutural no Brasil.
No próximo 15 de agosto, Porto Alegre recebe a 3a edição da Marcha dos Quimbandeiros e o 19o Encontro Internacional de Quimbandeiros. Os dois eventos são liderados por Pai Ricardo de Oxum, presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá e uma das principais referências do batuque gaúcho.
A mobilização reúne lideranças religiosas, sacerdotes e praticantes do Brasil, Uruguai e Argentina. Em 2025, a Marcha reuniu cerca de 2 mil pessoas, enquanto o Encontro Internacional recebeu aproximadamente 10 mil participantes, consolidando Porto Alegre como um dos principais polos públicos de expressão das religiões de matriz africana.
“Em um país onde as religiões de matriz africana ainda convivem com episódios recorrentes de intolerância e discriminação, a Marcha dos Quimbandeiros reafirma um direito fundamental: o de existir, professar a própria fé e preservar tradições que fazem parte da formação cultural e da identidade brasileira.”
Os números que ampliam a urgência do debate
O avanço das denúncias de intolerância religiosa ajuda a explicar o crescimento da mobilização. Levantamento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania aponta que o Disque 100 registrou 2.774 denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
Entre os casos em que a religião da vítima foi identificada, Umbanda e Candomblé concentram os maiores registros, com 228 e 161 denúncias, respectivamente. Os dados reforçam a discussão sobre racismo religioso estrutural e violência contra tradições afro-brasileiras.
O significado de Exu além do estigma
A participação de Demerson D’Alvaro aproxima religiosidade, cultura popular e debate público. O ator ganhou projeção nacional ao interpretar Exu no enredo campeão da Acadêmicos do Grande Rio, levando para a Marquês de Sapucaí símbolos ligados à ancestralidade afro-brasileira.
Nas tradições afro-brasileiras, Exu é associado à comunicação, aos caminhos e à transformação. A Marcha dos Quimbandeiros busca justamente ampliar esse entendimento e desconstruir interpretações marcadas por preconceitos históricos.
No Rio Grande do Sul, a Quimbanda ocupa um espaço singular dentro das religiões de matriz africana, com fundamentos ligados à história da população negra no estado e à formação da espiritualidade afro-gaúcha.
Porto Alegre virou ponto de encontro internacional
Com mais de três décadas dedicadas à preservação das tradições afro-brasileiras, Pai Ricardo de Oxum idealizou a Marcha e o Encontro Internacional ao lado da Família Yecari. A iniciativa transformou Porto Alegre em referência para sacerdotes e praticantes de diferentes países da América do Sul.
A mobilização acontece poucos meses após Pai Ricardo liderar um ato inter-religioso em homenagem a São Jorge, realizado em parceria com a Igreja São Jorge de Porto Alegre.
Serviço
- 3a Marcha dos Quimbandeiros
- 15 de agosto, às 14h
- Concentração: Usina do Gasômetro – Porto Alegre (RS)
- 19o Encontro Internacional de Quimbandeiros
- A partir das 20h
- Rótula da Quimbanda – Porto Alegre (RS)


