Em pleno ano de Copa do Mundo, quando os olhos do planeta se voltam para os grandes estádios e seleções, uma iniciativa no Rio propõe o caminho inverso: olhar para as origens. O Rolé Carioca realiza no dia 28 de junho o passeio “Futebol e Memória: Bangu”, que reconstrói a trajetória do esporte no Brasil a partir de um território muitas vezes esquecido — mas essencial — na história nacional.
O roteiro gratuito percorre pontos emblemáticos do bairro, conectando passado e presente para mostrar como o futebol ultrapassou o campo e se tornou um fenômeno social, cultural e político. Mais do que revisitar fatos históricos, o passeio revela como o subúrbio carioca foi protagonista na construção de uma identidade que hoje define o país.
Bangu no centro da história do futebol
O percurso começa no Bangu Shopping, espaço que carrega uma memória simbólica: o local abriga o prédio onde funcionava a antiga Fábrica Bangu, peça-chave na formação do bairro e no surgimento do futebol no país. A partir dali, os participantes seguem por marcos históricos como a estação de trem, a sede social do Bangu Atlético Clube, a Rua Júlio César, a Praça Guilherme da Silveira e o estádio Moça Bonita.
Mais do que um passeio geográfico, o trajeto propõe uma leitura ampliada da história. Cada parada revela como o futebol se entrelaçou com o cotidiano dos trabalhadores, com a urbanização e com a própria formação cultural do Rio de Janeiro.
Entre os personagens centrais está Thomas Donohoe, operário escocês que chegou ao bairro em 1894 para trabalhar na Companhia Progresso Industrial do Brazil. Considerado por muitos historiadores como responsável pelas primeiras partidas de futebol realizadas em território brasileiro, ele organizou jogos entre trabalhadores da fábrica — um gesto simples que acabaria atravessando gerações.
Receber o ponto de partida deste passeio incrível é especialmente significativo para o Bangu Shopping, que ocupa um espaço diretamente ligado à história do bairro e do futebol brasileiro. A antiga fábrica que hoje abriga o empreendimento foi palco de acontecimentos que ajudaram a moldar a identidade de Bangu e a trajetória do esporte no país. Apoiar iniciativas como o Rolé Carioca é uma forma de valorizar esse patrimônio histórico e fortalecer o vínculo da população com a memória local
Futebol, trabalho e identidade popular
O passeio evidencia um aspecto fundamental: Bangu foi pioneiro na democratização do futebol. Em uma época em que o esporte era dominado pelas elites e marcado pela exclusão racial, o bairro reuniu trabalhadores brasileiros e imigrantes em torno da prática esportiva.
Foi nesse contexto que o Bangu Atlético Clube se destacou ao abrir espaço para jogadores negros, desafiando as barreiras sociais da época. Esse movimento ajudou a redefinir o futebol como um esporte mais plural, popular e representativo.
Quando falamos em Copa do Mundo, normalmente pensamos nos grandes estádios, nos craques e nas seleções. Mas existe uma história anterior a tudo isso, construída por trabalhadores, moradores dos subúrbios e comunidades que ajudaram a transformar o futebol em um elemento fundamental da cultura brasileira. Este passeio mostra justamente como Bangu ocupa um lugar central nessa trajetória e por que preservar essa memória é também valorizar a história da cidade
A proposta do Rolé Carioca é justamente trazer à tona essas narrativas que ficaram à margem dos registros oficiais. Ao conectar patrimônio, memória e cotidiano, o projeto amplia a compreensão sobre o futebol como um fenômeno que vai muito além dos jogos.
Memória viva e preservação histórica
Esta edição contará com a participação do pesquisador convidado Carlos Molinari, jornalista e torcedor do Bangu, reconhecido por seu trabalho de preservação da memória alvirrubra. Com um acervo de mais de duas mil fotos digitalizadas, além de reportagens, vídeos e camisas, ele atua de forma voluntária na valorização da história do clube.
A presença de Molinari reforça o caráter documental do passeio, que não apenas revisita o passado, mas também contribui para mantê-lo vivo e acessível às novas gerações.
Ao longo do percurso, os participantes entram em contato com histórias que ajudam a compreender como o futebol se consolidou como patrimônio cultural brasileiro, resultado direto das vivências populares e da dinâmica urbana.
As mulheres e a luta pelo direito de jogar
Outro eixo importante do passeio é o resgate da trajetória do futebol feminino no subúrbio carioca. Durante décadas, a prática foi proibida no Brasil, entre 1941 e 1979, por um decreto do então presidente Getúlio Vargas.
Mesmo diante das restrições, mulheres resistiram. Em Bangu, nomes como Rose e Elzinha marcaram época no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, desafiando preconceitos e ocupando espaços historicamente negados.
Durante décadas, as mulheres foram impedidas de praticar futebol por preconceitos que limitaram não apenas suas oportunidades, mas também a construção da memória esportiva do país. Trazer essa história para o Rolé é uma forma de valorizar essas pioneiras e contribuir para uma reparação histórica necessária
Ao incluir essas narrativas, o passeio amplia o olhar sobre o futebol, incorporando dimensões sociais e políticas que muitas vezes ficam de fora das versões mais conhecidas da história.
Um passeio que reposiciona o olhar sobre o futebol
Ao conectar passado e presente, o Rolé Carioca reforça sua missão de valorizar histórias invisibilizadas e propor novas formas de ocupar a cidade. Em um momento em que o futebol volta a mobilizar milhões de pessoas ao redor do mundo, o projeto convida o público a revisitar suas origens — e entender como elas seguem moldando o presente.
A edição de 2026 do projeto é uma realização da M’Baraká, com co-realização do Instituto Rolé, Tuntum Cultura e Pressa Filmes, além de co-patrocínio da Multiterminais e patrocínio da Riocard, First RH Group, Estácio, Instituto Yduqs, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei ISS.
Serviço
- Data: 28/06
- Horário: 10h
- Ponto de encontro: Bangu Shopping
- Evento gratuito


