Um novo circuito de moda circular, rap e educação ambiental começa a ganhar forma na Rocinha com o lançamento do Rocinha UP, projeto que transforma kimonos de jiu-jítsu e resíduos têxteis em produtos de moda sustentável e oportunidades de trabalho dentro da comunidade.
O encontro está marcado para o próximo sábado, 15 de agosto, a partir das 11h, na Igreja Metodista da Rocinha, com programação gratuita que mistura feira colaborativa, oficina prática, palestra e show de rap. A proposta é simples e direta: transformar materiais que seriam descartados em uma cadeia produtiva de moda, envolvendo costureiras, modelistas, pilotistas, designers e outros profissionais locais.
Neste primeiro momento, o Rocinha UP começa a operar com foco no upcycling, processo que reaproveita peças já existentes e seus resíduos para criar novos produtos, sem retornar à matéria-prima original. O movimento se ancora em uma realidade concreta da comunidade: a presença de academias de artes marciais, com kimonos e tatames que podem ganhar outros usos e prolongar sua vida útil.
Idealizado pela designer e produtora cultural Paula Maia, em parceria com o professor de artes marciais Paulo Cunha, o projeto foi selecionado pelo Programa PISTA – Conectando Territórios Inovadores, da Faperj. A iniciativa se posiciona na fronteira entre economia circular, inclusão produtiva, educação ambiental e valorização dos talentos da Rocinha, com impacto direto na geração de renda dentro do território.
Queremos reunir pessoas, trocar conhecimento e mostrar que a sustentabilidade pode se transformar em trabalho, criatividade e novas oportunidades na Rocinha.
Para marcar o início das atividades, o lançamento do Rocinha UP foi desenhado como um dia de circulação intensa pela igreja e pela própria comunidade. Além da música, o público vai encontrar uma programação que se espalha por moda, artesanato, educação ambiental e reaproveitamento de materiais, aproximando a economia criativa local de quem vive ou visita o território.
Rap da Rocinha no encerramento
O encerramento da programação ficará por conta do rapper Pyetrin, cria da Rocinha e nome da nova geração do rap local. Ele chega ao palco trazendo a trajetória construída nas batalhas da Roda Cultural da Rocinha, um dos espaços de formação e valorização de novos MCs da região.
A presença de Pyetrin reforça o viés cultural do evento: o Rocinha UP não se limita à moda sustentável. O projeto busca abrir espaço para diferentes manifestações artísticas e linguagens produzidas na comunidade, conectando o universo das lutas e do reaproveitamento têxtil com o cenário do rap e da cultura de rua.
Ao incluir um artista revelado em um circuito de batalhas de rima da própria Rocinha, o lançamento destaca o papel das rodas culturais como laboratório de experimentação e fortalecimento dos talentos locais. Rap, moda e sustentabilidade aparecem como partes de uma mesma narrativa, em que o território não apenas consome, mas produz conteúdo e soluções.
Feira colaborativa e artesanato em rede
Um dos pontos centrais da programação é a feira colaborativa de artesãs locais, organizada pela Escoart em parceria com o Ateliê Metodista da Rocinha. A feira nasce como vitrine para trabalhos produzidos por mulheres da região, conectando o público à economia criativa que movimenta silenciosamente o território.
Ao abrir espaço para que essas artesãs apresentem seus produtos, o Rocinha UP ajuda a tornar visível um circuito de produção manual e autoral que muitas vezes permanece restrito a redes de vizinhança. A feira colaborativa fortalece trocas entre quem cria e quem consome, ampliando a circulação de renda dentro da própria comunidade.
Esse recorte de gênero e território é parte da visão de Paula Maia e dos parceiros do projeto: articular moda sustentável com protagonismo feminino e com práticas de colaboração, em vez de uma lógica competitiva. A feira deixa claro que o Rocinha UP pretende dialogar com iniciativas já existentes, somando esforços em vez de substituí-las.
Oficina de transformação têxtil na prática
Na programação, a técnica do upcycling ganha uma dimensão prática com a oficina Transformação Têxtil, conduzida por Rita de Cássia, costureira, modelista e pilotista. A proposta da atividade é ensinar costura criativa a partir de um item comum do guarda-roupa: camisetas de malha.
Durante a oficina, participantes vão aprender caminhos para transformar essas camisetas em bolsas e outros objetos utilitários, explorando cortes, encaixes e acabamentos que valorizem o tecido já existente. Ao mostrar formas de reaproveitar peças que poderiam ser descartadas, Rita coloca em prática um princípio central do Rocinha UP: prolongar a vida útil de materiais que já circulam na comunidade.
A atividade também se apresenta como uma porta de entrada para quem deseja se aproximar do universo da costura, da modelagem e da criação em pequena escala. Ao lado das profissionais envolvidas no projeto, participantes podem visualizar como habilidades têxteis se conectam a oportunidades concretas de trabalho e geração de renda dentro da Rocinha.
Sustentabilidade e economia circular em debate
A relação entre consumo, resíduos e reaproveitamento será aprofundada na palestra “O Lixo que Vale Ouro”, apresentada pela engenheira florestal Aurora Segall. Com mais de 20 anos de atuação em projetos de sustentabilidade, Aurora é fundadora do Instituto Terra of Tomorrow e trabalha com consultoria ambiental, recuperação de áreas degradadas, economia circular, ESG e crédito de carbono.
Na fala, ela vai tratar dos caminhos possíveis para integrar práticas sustentáveis ao cotidiano, destacando oportunidades socioambientais que se abrem quando resíduos passam a ser vistos como recursos. A palestra também dialoga com seu trabalho à frente da plataforma @reciclereutilizeplante, dedicada à divulgação de ações de reciclagem, reutilização e cultivo.
Ao trazer esse debate para dentro da Rocinha, o Rocinha UP conecta a experiência de uma grande favela carioca com discussões contemporâneas sobre economia circular. A ideia é mostrar que conceitos como ESG e crédito de carbono não pertencem apenas a grandes empresas, mas podem ser traduzidos em práticas comunitárias concretas.
As primeiras peças da coleção Rocinha UP
A moda aparece de forma direta na exposição das cinco primeiras peças desenvolvidas pelo Rocinha UP: mochila, pochete, ecobag, nécessaire e case para notebook. Nessa etapa inicial, a matéria-prima central é composta por kimonos de jiu-jítsu e outros resíduos têxteis coletados em academias e espaços da comunidade.
Esses itens inauguram a primeira fase de uma coleção que deverá chegar a dez modelos, com design pensado para o uso cotidiano e para a durabilidade. Mais do que produtos, as peças funcionam como demonstração concreta do potencial do upcycling: tecidos originalmente preparados para o tatame se transformam em objetos ligados ao estudo, ao trabalho e ao lazer.
Ao expor as criações ao público no dia do lançamento, o projeto abre espaço para receber feedbacks e impressões de moradores e visitantes. A circulação dessas primeiras peças ajuda a testar formatos, ajustar modelagens e consolidar uma identidade visual que nasce da própria Rocinha, com participação de profissionais locais em todo o processo.
Trajetória de Paula Maia e construção do projeto
A frente do Rocinha UP, Paula Maia traz uma trajetória ligada à economia circular e ao consumo colaborativo. Criadora do Faz Girar Market, em 2019, ela desenvolve há anos ações voltadas ao reaproveitamento de materiais e à construção de redes de troca, buscando novas formas de relação com objetos e roupas.
Parte dessa experiência começou a se consolidar após um período em que Paula viveu na Espanha, onde teve contato próximo com práticas de reciclagem, reutilização e consumo consciente. Ao retornar ao Brasil, ela passou a articular iniciativas que conectassem esses aprendizados com realidades urbanas, como a da Rocinha.
A parceria com Paulo Cunha, professor de artes marciais, fortalece o vínculo do projeto com a cultura das lutas e com o universo dos kimonos. Juntos, eles estruturaram o Rocinha UP com a seguinte missão: criar uma cadeia produtiva sustentável, formar rede de profissionais da comunidade e transformar a relação com os resíduos têxteis gerados pelo território.
Nesse desenho, o lançamento não é um ponto de chegada, mas o início de um processo de construção coletiva. A campanha de arrecadação de kimonos, a programação cultural e a exposição das peças funcionam como primeiros passos para consolidar a proposta de unir sustentabilidade, criatividade e geração de renda em um mesmo eixo.
Campanha de arrecadação e pontos de coleta
A campanha de arrecadação de kimonos já está em andamento. Por enquanto, quatro pontos de coleta foram definidos na Rocinha, no Leblon e na Barra da Tijuca, com a proposta de ampliar essa rede e mobilizar academias de luta de outras regiões do Rio de Janeiro.
Na Rocinha, o recebimento de peças acontece na Sede Rocinha UP (Rua José Belmiro de Souza, 25 – Rocinha), na Escola Jiu Jitsu Lapidar (Travessa União do Bairro Barcelos, 24 – Rocinha) e na academia Nova Geração (Av. Bartolomeu Mitre, 808 B – Leblon). Na Barra da Tijuca, as doações podem ser feitas na Tata Fight Team (Prefeito Dulcídio Cardoso, 3007 – Barra da Tijuca).
Durante o evento de lançamento, a recepção da Igreja Metodista da Rocinha também ficará responsável por receber kimonos, principalmente a partir da abertura dos portões, às 11h. A ideia é que academias e praticantes de jiu-jítsu se tornem parceiros constantes do projeto, encaminhando peças que não são mais utilizadas para que entrem na cadeia de upcycling.
O objetivo declarado é ampliar essa rede ao longo do tempo, conectando diferentes bairros e regiões da cidade em torno da mesma lógica: transformar um equipamento esportivo em matéria-prima para moda sustentável, fortalecendo o elo entre práticas físicas, consciência ambiental e economia circular em territórios populares.
Como será o dia do lançamento
O cronograma da estreia do Rocinha UP foi organizado para criar uma sequência de atividades que mantenha a circulação constante de pessoas pela Igreja Metodista da Rocinha. A programação começa às 10h30, com passagem de som do rapper Pyetrin, preparando o ambiente para o show de encerramento.
Às 11h, acontece a abertura dos portões ao público, acompanhada do início do recebimento das doações de kimonos na recepção, da abertura da feira colaborativa (Escoart e Ateliê Metodista da Rocinha) e da visitação livre à exposição das cinco peças do Rocinha UP. É nesse momento que o público passa a circular pelos diferentes núcleos da programação.
A partir das 11h30, a cerimônia de abertura reúne Paula Maia e Paulo Cunha em um momento de boas-vindas institucionais, com apresentação da missão do Rocinha UP, do conceito “Porque é Urgente Preservar” e dos impactos sociais previstos para a comunidade. É a entrada oficial do projeto na agenda cultural e socioambiental da Rocinha.
Ao meio-dia, tem início a palestra “O Lixo que Vale Ouro”, ministrada por Aurora Segall, com abordagem sobre resíduos, economia circular, ESG e oportunidades socioambientais. Em seguida, às 12h40, começa a oficina prática “Transformação Têxtil”, conduzida por Rita de Cássia, focada em técnicas de upcycling transformando camisetas de malha em objetos utilitários.
Às 13h30, ocorre o lançamento oficial do financiamento coletivo, momento em que serão apresentadas a campanha de arrecadação de fundos e as metas de expansão do projeto, incluindo o anúncio formal dos pontos de coleta de kimonos, como a Sede Rocinha UP e a Escola Lapidar. Finalmente, às 14h, o show do rapper Pyetrin encerra o evento, consolidando o diálogo entre cultura, moda circular e sustentabilidade.
Serviço
- Lançamento do Rocinha UP
- Data: 15 de agosto (sábado), às 11h
- Local: Igreja Metodista da Rocinha
- Endereço: Antigo Caminho dos Boiadeiros, nº 7 – Rocinha – Rio de Janeiro
- Doação de kimonos – pontos de coleta:
- Sede Rocinha UP – Rua José Belmiro de Souza, 25 – Rocinha
- Escola Jiu Jitsu Lapidar – Travessa União do Bairro Barcelos, 24 – Rocinha
- Nova Geração – Av. Bartolomeu Mitre, 808 B – Leblon
- Tata Fight Team – Prefeito Dulcídio Cardoso, 3007 – Barra da Tijuca





