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Água como ritmo: o livro que reinventa a poesia brasileira

“Rítmica marítima”, de Júlia Vita, une teoria, feminismo e ecologia para revelar como a água funda o ritmo poético em mais de 40 autores brasileiros.

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A água que escreve

A Sophia Editora lança “Rítmica marítima: água como matéria para a escrita de poemas”, da poeta, pesquisadora e editora Júlia Vita. O livro é resultado de sua dissertação de mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e investiga a conexão entre o elemento aquático e a fundação do ritmo poético na poesia brasileira contemporânea.

A pesquisa nasceu do próprio processo criativo da autora. “Esta pesquisa parte do processo empenhado na publicação do meu primeiro livro de poemas, ‘Alga viva’, que foi elaborado a partir dessas sensações aquáticas que permeiam minha característica de escrita”, explica Júlia Vita. A obra foi pré-lançada durante a Festa Literária Internacional de Niterói (Flin).

Três eixos, um oceano de ideias

O livro estrutura-se em três movimentos complementares. No primeiro, a autora examina a origem do conceito de ritmo — desde a associação mítica ao “fluir” das águas, derivada do grego rhythmós e do verbo reo (fluir), até as reformulações linguísticas de Émile Benveniste e Henri Meschonnic. “Aprofundando na etimologia da palavra ‘ritmo’, que me fez encontrar e reencontrar a água diversas vezes, não demorei a descobrir que havia uma refutação linguística que colocava em xeque a explicação do termo ter derivado do ‘fluir’ das ondas”, revela.

No segundo eixo, Júlia aproxima o pensamento de Octavio Paz e Gaston Bachelard para explorar como a respiração, o corpo e a voz dialogam com o movimento das águas. “O poeta cria por analogia: a dinâmica móvel da linguagem permite ao poeta criar seu próprio universo rítmico, utilizando as mesmas potências universais de atração e repulsa”, reflete, citando Paz.

A terceira parte mergulha na imaginação material bachelardiana, explorando as águas como produtoras de imagens poéticas. “A água opera no mundo com uma função reflexiva distinta dos espelhos estáticos: as águas refletem o mundo devolvendo as imagens banhadas por elas”, observa a autora. Nesse segmento, ela também analisa como degradações ambientais — como os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho e os vazamentos de óleo no litoral brasileiro — provocam quebras rítmicas na poesia.

Feminismo e ecologia como método

Um dos aspectos mais originais da obra é o recorte de gênero que perpassa toda a análise. A pesquisadora privilegia poemas de autoria feminina, situando-se numa linhagem de pensamento latino-americano que reivindica a natureza como sujeito de direitos. “Amplio a compreensão do que se entende por sujeito, para abarcar também o próprio discurso poético da matéria aquática”, afirma.

Funcionando também como uma antologia comentada, o livro analisa obras de mais de quarenta autoras e autores, incluindo Ana Cristina Cesar, Marília Garcia, Olga Savary, Orides Fontela e Prisca Agustoni, entre outras vozes da cena literária atual. Integram ainda a análise poetas com quem a própria Júlia atuou no preparo e edição de textos, como Bárbara Mançanares, Beatriz Rodrigues, Bruna Vilaça, Brunna Côrtes, Bruno Jalles, Bruno Pacífico, Camille Perissé, Danielle Freitas, Érica Magni, juliana C. alvernaz, Laura Redfern Navarro, Nathália Ranny e Rodrigo Cabral.

Entre academia e criação

A obra representa uma contribuição à dissolução de fronteiras entre criação artística e produção acadêmica. “Me interessa enfatizar esse ponto, circulando o resultado atualizado após a defesa, para que também seja um ponto de contribuição para a dissolução de certos limites que até hoje geram barreiras de diálogo entre as áreas”, destaca a autora.

O livro conta com texto de quarta capa da escritora Mar Becker; prefácio de Gabriel Morais Medeiros, doutor em Teoria e História Literária (Unicamp) e editor na Ofícios Terrestres Edições; posfácio de Bruno Jalles, historiador, doutor em Filosofia da Arte pela UFF e poeta; e texto de orelha de juliana C. alvernaz, poeta e professora do Departamento de Línguas e Letras da UFES.

“Com sensibilidade rara e uma atenção que opera com exuberância nos escoamentos da matéria água entre teoria e poesia, Júlia Vita nos oferece, com ‘Rítmica marítima’, um trabalho poderoso — aporte bibliográfico tanto para poetas e escritores quanto para pesquisadores.” — Mar Becker, escritora, no texto de quarta capa da obra

Sobre a autora

Júlia Vita (Niterói, 1995) é mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF. Escritora, artista, professora e editora, é responsável pela Laboriosa Produções Poéticas. Publicou o livro de poemas “Alga viva” (Córrego, 2019), premiado no edital Cultura nas Redes (SECEC-RJ) em 2020, ano em que também recebeu o Prêmio Erika Ferreira (SMC-Niterói). Como profissional do texto, atuou na preparação de obras para o Grupo Editorial Record e para editoras como Ofícios Terrestres, Patuá e Sophia.


Serviço


Água como ritmo: o livro que reinventa a poesia brasileira
Foto: Divulgação
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