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Aos 56, Ana Paula Couto faz dos 50+ um manifesto literário

Professora que começou a publicar após os 50, Ana Paula Couto lança Amor de Alecrim e coloca menopausa, desejo e reinvenção feminina no centro da narrativa.

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Aos 56 anos, Ana Paula Couto vive uma segunda estreia. Por mais de duas décadas, ela ensinou Língua Inglesa em Nova Friburgo (RJ). Só após os 50 deu o passo que transformaria sua vida: publicar ficção. Com o lançamento de seu segundo romance, Amor de Alecrim (2025), a autora fluminense reafirma a mulher madura como protagonista da própria história e confronta, com humor e leveza, o etarismo estrutural que ainda marca o mercado editorial e a sociedade.

Da sala de aula à página em branco

A escrita ganhou força durante a pandemia. Ana Paula passou a participar de antologias em 2021 e, a partir de um conto sugerido em sessões de terapia, iniciou o romance que mudaria sua trajetória. “Eu precisava escrever sobre alguns assuntos que me assombravam. De um conto surgiram capítulos, vários, pois essa história queria ser contada. Foi mais forte que eu.” O resultado foi Amor de Manjericão (2022), livro que apresentou a personagem Amanda ao público e marcou sua transição definitiva para a carreira literária.

Amanda aos 50: menopausa, ninho vazio e recomeço

Em Amor de Alecrim, Ana Paula aprofunda a jornada de Amanda, que chega aos 50 lidando com menopausa, crise conjugal, a saída dos filhos de casa e o reencontro com paixões do passado. A narrativa aborda temas como invisibilidade simbólica da mulher após os 40, sexualidade feminina madura, maternidade, reinvenção profissional tardia e autonomia emocional — assuntos que a autora recusa tratar como tabu.

“Escrever sobre mulheres maduras é um ato político”, afirma Ana Paula. “Precisamos falar de menopausa, envelhecimento, sexualidade, independência emocional e muito mais. A mulher precisa ser vista, acolhida, precisa saber que não precisa sofrer sozinha, calada e resignada.”

Humor como estratégia, não como fuga

A leveza que marca sua escrita não suaviza os conflitos — ela os torna suportáveis. “Quando os personagens passam por algo denso, que precisa ser contado, misturar uma pitada de humor, às vezes sarcasmo, faz com que o leitor se aproprie da dor, mas também sorria”, explica. “A irreverência traz a pausa, a trégua, para que os personagens, assim como os leitores, sobrevivam ao caos, à desordem e ao sofrimento.”

Chick-lit sem rótulo, com posicionamento

Sua obra dialoga diretamente com a reinvenção do chick-lit. Nascido nos anos 1980 com conotações pejorativas, o subgênero ganhou palco nos anos 1990 com histórias leves, linguagem informal e narrativa íntima. Hoje, amplia seu escopo ao dar voz a protagonistas maduras. Ana Paula abraça o movimento sem se sentir confinada. “Não me vejo lacrada numa caixa com um rótulo.” Para ela, valorizar o chick-lit é também questionar hierarquias literárias que por décadas desprezaram narrativas centradas na experiência feminina.

Leitoras como coautoras

A recepção do público tem sido termômetro fundamental. Foi uma leitora quem sugeriu o nome Amanda para a protagonista, e o diálogo com o público segue influenciando a escrita. Em Amor de Alecrim, há referências e até personagens criados a partir de sugestões de leitores do primeiro volume, a quem o livro é dedicado. “O que cria um elo forte com o leitor é o fato corriqueiro, ordinário, mas não menos importante. O que é comum nos une, nos emociona e nos espelha”, diz a autora.

Reconhecimento que transforma

Participante de bienais, festivais literários e coletivos de escritoras, Ana Paula credita a esses espaços o impulso inicial para sua carreira. A mudança também transformou sua autoimagem. “O jeito que você se olha muda, como as pessoas te olham muda. Para mim, ser reconhecida como escritora trouxe um profundo sentimento de realização pessoal. Foi um reencontro comigo mesma, com aquela menina adolescente que não sabia que rumo tomar e guardava seus manuscritos na gaveta.”

Comece pelo simples. Mudanças começam com um primeiro degrau. Ninguém chega ao topo sem passar pela base. Um passinho de cada vez, uma respiração no meio do processo para oxigenar e clarear a mente e muita, muita generosidade consigo mesma! Você pode, você consegue, você realiza.


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Foto: Divulgação
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