Em “Os Interiores”, João Matias transforma o Nordeste em cenário de um Brasil distópico, marcado por militarismo e crise ambiental.
Em seu romance de estreia, publicado pela Editora Patuá, João Matias utiliza a distopia como lente crítica para observar o país recente. Ambientado nos interiores do Nordeste, o livro retrata um Brasil arrasado por colapsos políticos, desigualdade extrema e degradação ambiental — um território à beira do abismo.
Segundo o autor, a inspiração veio dos “anos de descaso, violência, ódio e injustiça social e climática” entre 2018 e 2022. Nesse universo ficcional, golpes de Estado se consolidam, a presença militar cresce e populações inteiras se tornam inimigas do próprio Estado.
Os “retirantes ambientais” expulsos pela seca e pela erosão protagonizam a narrativa. O poder público, em vez de acolher, cria campos de concentração inspirados nos antigos “currais do governo”, evidenciando o ciclo histórico de exclusão e violência no sertão brasileiro.
A paisagem, degradada e viva, é um personagem. As voçorocas — crateras formadas pela erosão do solo — são metáforas concretas de um país em colapso. “Tudo isso está relacionado ao descaso ambiental e político”, explica Matias.
No texto, o autor articula desumanização e ódio como práticas institucionalizadas. “Os moradores das cidades metralham os retirantes”, resume, ressaltando a violência extrema que marca o livro. A exclusão torna-se política de Estado e o horror cotidiano, norma.
Com estrutura de “road book”, a narrativa imprime ritmo cinematográfico e sensação de deslocamento. “Pensei numa estrutura que fizesse o leitor estar no banco de trás de um carro, observando a geografia, os retirantes, os diálogos”, afirma o autor.
“Os Interiores se estrutura num fluxo de tensão que flerta com o novo horror, ecoando os anseios reacionários de um Brasil recente.” — Sérgio Tavares
Para João Matias, escrever foi também um gesto político: “É a minha maneira de acertar as contas com o governo militarista outrora vivido nos idos de 2018”, resume. “Os Interiores” propõe, assim, uma reflexão urgente sobre memória, autoritarismo e o futuro do país.
Foto: Divulgação

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