Ícone do site Aurora Cultural

Livro provoca reflexão sobre envelhecer em paz na sociedade atual

livro provoca reflexao sobre envelhecer em paz na sociedade atual featured

“Envelhecer ainda é permeado de desafios para muitas pessoas.” A frase que abre “Me deixem envelhecer em paz!” resume o ponto de partida da nova obra da psicóloga, pesquisadora e professora da UERJ, Heloísa Ferreira. O livro reúne 30 crônicas inéditas que exploram, com sensibilidade e profundidade, as complexidades do envelhecimento em uma sociedade que ainda evita encarar o tema de forma direta.

Publicada pela Editora Appris, a obra percorre questões como idadismo, menopausa, saúde mental, finitude e os desafios emocionais da vida adulta. Com uma escrita que mistura vivências pessoais, humor e reflexão acadêmica, Heloísa constrói um retrato íntimo e ao mesmo tempo coletivo sobre o que significa envelhecer hoje.

Um olhar pessoal sobre o envelhecimento

A origem do livro está em um momento de virada pessoal. Às vésperas dos 40 anos, Heloísa passou a encarar o próprio envelhecimento de maneira mais concreta — algo que, até então, estava restrito ao campo acadêmico. Essa mudança de perspectiva deu origem às crônicas que compõem a obra.

A autora explica que estudar o envelhecimento é diferente de vivenciá-lo. Ao unir essas duas dimensões, ela cria um texto que dialoga tanto com leitores leigos quanto com aqueles interessados em reflexões mais profundas sobre o tema.

“Estudar o envelhecimento é muito diferente de refletir sobre o próprio envelhecimento. Eu quis me permitir fazer as duas coisas”

O formato das crônicas contribui para aproximar o debate do cotidiano. Em vez de um discurso técnico ou distante, a autora opta por narrativas que partem de experiências comuns, tornando o tema mais acessível e urgente.

Idadismo, corpo e pressões sociais

Um dos eixos centrais do livro é o questionamento de crenças idadistas profundamente enraizadas, especialmente aquelas direcionadas às mulheres. Heloísa aborda temas como cabelos brancos, mudanças corporais e menopausa sob a ótica do impacto emocional causado pelo culto à juventude.

Essas questões aparecem conectadas a expectativas sociais que, muitas vezes, tornam o envelhecimento feminino mais difícil. A autora também destaca a sobrecarga histórica de cuidado que recai sobre as mulheres, afetando diretamente sua saúde física e emocional ao longo da vida.

Ao longo das crônicas, o preconceito não surge apenas como um conceito abstrato, mas como algo presente em atitudes, discursos e até mesmo na linguagem cotidiana. A rejeição à própria expressão “pessoa idosa”, segundo Heloísa, revela o desconforto social em lidar com a velhice.

Saúde mental e o silêncio sobre a finitude

Outro ponto de destaque é a forma como a saúde mental das pessoas idosas ainda é negligenciada. Sintomas como depressão, solidão e isolamento social frequentemente são tratados como consequências “naturais” da idade, o que, na prática, invisibiliza a necessidade de cuidado e intervenção.

O livro também enfrenta um dos maiores tabus sociais: a dificuldade de falar sobre a morte. Para a autora, evitar esse tema não protege — ao contrário, torna o envelhecimento mais angustiante e menos consciente.

“O medo da morte é legítimo. O problema é simplesmente não considerar que a vida é finita”

Ao propor uma reflexão mais honesta sobre a finitude, Heloísa sugere que encarar esse limite pode trazer mais clareza sobre prioridades e sentido de vida.

Um país despreparado para envelhecer

Além da dimensão individual, a obra amplia o debate para questões estruturais. A autora chama atenção para o fato de que o Brasil ainda não está preparado para o envelhecimento acelerado da população.

Entre os desafios apontados estão desigualdade social, dificuldades de acesso à saúde e a permanência de crenças negativas sobre a velhice. Para Heloísa, enfrentar esse cenário exige mais do que políticas de saúde — envolve repensar mobilidade urbana, moradia, acessibilidade, inclusão digital e oportunidades de participação social.

Ao longo do livro, essas reflexões aparecem como um convite à mudança coletiva. Mais do que denunciar problemas, a autora busca provocar novas formas de enxergar o envelhecimento, tanto no plano individual quanto no social.


Serviço

Sair da versão mobile