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Livro revela bastidores do crédito e dos cartões no Brasil

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O lançamento de Over Limit – Histórias do Cartão e do Crédito no Brasil, da Editora Canteiros, mergulha em uma transformação silenciosa que mudou a forma como brasileiros consomem, poupam e se relacionam com o dinheiro. Em um cenário atual dominado por Pix, carteiras digitais e crédito instantâneo, o livro resgata um passado em que o acesso ao crédito era restrito, baseado em relações pessoais e cercado de desconfiança.

Escrito pelo jornalista William Salasar, com curadoria de nomes experientes do setor financeiro, a obra reconstrói a trajetória dos meios de pagamento no país a partir de episódios históricos, decisões estratégicas e depoimentos de quem participou diretamente dessa evolução. O resultado é um panorama que combina memória, análise e bastidores de um dos ecossistemas financeiros mais dinâmicos do mundo.

Do elitismo ao acesso em massa

O ponto de partida do livro revela um cenário distante da realidade atual. Quando o primeiro cartão chegou ao Brasil, em 1956, pelas mãos do empresário tcheco Hans Taubner com o Diners Club, o acesso era altamente restrito. Não se tratava apenas de ter renda: era preciso ser indicado por outro membro e pagar uma taxa de admissão entre 70 e 100 dólares.

Além disso, o cartão não oferecia crédito como conhecemos hoje. A fatura precisava ser quitada integralmente todos os meses, sem possibilidade de parcelamento. Era, na prática, um instrumento de pagamento diferido, mas não de financiamento.

A mudança começa a ganhar escala em 1968, com o lançamento do Cartão Bradesco Elo. A iniciativa, liderada por Manoel Cabete e Lázaro de Mello Brandão, encontrou apoio de Amador Aguiar, fundador do banco, que defendia uma lógica mais inclusiva. Em vez de restringir, o cartão passou a ser distribuído em larga escala pelas agências da instituição.

Essa virada marca o início de uma democratização do crédito, baseada em volume e capilaridade. A lógica era clara: muitos empréstimos pequenos poderiam ser mais eficientes do que poucos de alto valor.

A chegada do parcelamento e a expansão do sistema

O avanço seguinte viria em 1970, com o lançamento do Citycard pelo Citi, primeiro cartão no Brasil a permitir parcelamento. A novidade introduziu o conceito de pagamento mínimo, fixado em 10% da fatura, abrindo caminho para o modelo de crédito rotativo.

Um ano depois, surgiria o Credicard, fruto de uma parceria entre Citi, Itaú e Unibanco. A união entre instituições ampliou a base de clientes e acelerou a aceitação do cartão no país, consolidando um modelo que começava a ganhar tração.

Mas a expansão não foi simples. O livro revela estratégias pouco convencionais para convencer comerciantes a aceitar cartões. Executivos simulavam compras em supermercados e restaurantes, questionando se o estabelecimento aceitava o meio de pagamento. Quando a resposta era negativa, abandonavam carrinhos cheios ou deixavam o local após o pedido.

Como praticamente nenhum comerciante fazia ideia do que fosse cartão de crédito, sua dúvida primordial era: quem garante esse troço?

Esses episódios ilustram o grau de desconhecimento e resistência inicial. Mais do que tecnologia, foi necessário construir confiança — entre bancos, lojistas e consumidores.

Construção de confiança e infraestrutura

A evolução do sistema financeiro brasileiro descrita em Over Limit não se resume à inovação tecnológica. O livro destaca um processo contínuo de aprendizado coletivo, envolvendo regulação, desenvolvimento de infraestrutura e criação de padrões operacionais.

Esse movimento incluiu a consolidação de instituições e mecanismos como bureaus de crédito, Cadastro Positivo e o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB). Cada etapa contribuiu para reduzir riscos, aumentar a previsibilidade e ampliar o acesso ao crédito.

Ao mesmo tempo, a obra enfatiza o papel humano nesse processo. Executivos, reguladores e técnicos aparecem como agentes centrais em decisões que redefiniram a relação entre consumidores e dinheiro.

Entre inclusão e risco

Um dos pontos mais relevantes do livro é tratar o crédito como instrumento de desenvolvimento econômico e cidadania. Ao ampliar o acesso, o sistema permitiu que mais pessoas participassem da economia formal e tivessem acesso a bens e serviços antes inacessíveis.

No entanto, essa expansão também trouxe desafios. A obra aponta riscos como inadimplência, superendividamento e fragilidades institucionais, mostrando que o crédito, quando mal gerido, pode gerar crises com impacto amplo.

Essa dualidade — inclusão versus risco — atravessa toda a narrativa, reforçando a complexidade do tema e a necessidade de equilíbrio entre inovação e responsabilidade.

Do passado ao sistema em tempo real

Ao conectar diferentes períodos históricos, Over Limit ajuda a explicar por que o Brasil se tornou referência global em inovação financeira. O livro mostra que a sofisticação atual não surgiu de forma espontânea, mas como resultado de ciclos sucessivos de crise, adaptação e investimento.

A chegada de fintechs, o avanço do open finance e a implementação do Pix representam apenas os capítulos mais recentes dessa trajetória. Cada inovação se apoia em estruturas e aprendizados acumulados ao longo de décadas.

Mais do que um registro histórico, a obra se posiciona como um ponto de partida para discutir o futuro do crédito, dos pagamentos e da análise de risco em um ambiente cada vez mais digital e integrado.


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