Corpos ímpares revisita mais de 20 anos da Pulsar Cia. de Dança e propõe uma coreografia onde a deficiência não limita — ela cria.
Há espetáculos que deixam rastro. Pulsar — Haploos e Diploos, estreado no Rio de Janeiro em 2001, foi um deles. Primeiro trabalho profissional da Pulsar Cia. de Dança, o espetáculo reuniu, de forma inédita, bailarinos e atores com e sem deficiências num mesmo palco — não como gesto de inclusão simbólica, mas como proposta estética radical. Mais de duas décadas depois, esse percurso ganha forma escrita no livro Corpos ímpares – Uma expressão da singularidade na dança, publicado pela Summus Editorial.
A obra é assinada por Maria Teresa Taquechel y Saiz, bailarina, coreógrafa e diretora da Pulsar desde sua fundação, em 2000. Formada em Dança Contemporânea pela Escola Angel Vianna e mestre em Artes Cênicas pela UFRJ, ela acumula ainda especializações em Recuperação Motora, Terapia Através da Dança e no Método Internacional Feldenkrais. É esse cruzamento de saberes que dá espessura ao livro — e o afasta de qualquer tom de manual ou relatório técnico.
Da reabilitação à criação
A trajetória de Teresa Taquechel começa em território clínico — a reabilitação — e migra, de forma orgânica, para o campo da criação artística. Esse deslocamento é central no livro. A autora não abandona o olhar terapêutico, mas o tensiona com a pergunta que orienta toda a pesquisa da Pulsar: o que acontece quando o corpo com deficiência deixa de ser objeto de cuidado e passa a ser sujeito de invenção?
Ancorada na pedagogia da Escola Angel Vianna e atravessada pela prática do contato improvisação, ela desenvolve o conceito de “corpos ímpares com resoluções próprias de movimento” — a ideia de que cada corpo encontra seus próprios caminhos cinéticos, e que esses caminhos são, em si, matéria coreográfica. Não há adaptação de uma técnica universal. Há construção a partir da singularidade.
Um mosaico de memórias e movimento
A estrutura do livro acompanha o roteiro do espetáculo: Abertura, Primeiro ato — Haploos, Segundo ato — Diploos (Rogério/Erinaldo), Terceiro ato — Diploos (Traduzir, Andréa e Erinaldo e Bambu) e Fechamento. Essa escolha não é apenas formal — ela preserva a lógica dramatúrgica do trabalho e convida o leitor a acompanhar o processo como se estivesse no ensaio.
Ao longo das 192 páginas, descrições detalhadas de processos criativos, registros coreográficos e depoimentos dos intérpretes formam um mosaico vivo. Três anexos complementam a narrativa: reproduções dos programas dos espetáculos, registros de festivais e recortes de jornais que cobriram as apresentações ao longo dos anos. Notas biográficas dos participantes multidisciplinares fecham o volume, reforçando o caráter coletivo de toda a criação.
Ao reconhecer a singularidade dos corpos ímpares com resoluções próprias de movimento, a autora propõe uma dança que nasce da diferença — e transforma o gesto, a cena e o encontro com o outro.
Muito além do palco
Em 2004, a Pulsar Cia. de Dança recebeu o prêmio Ordem do Mérito Cultural — reconhecimento que atesta a relevância do trabalho muito além do circuito da dança inclusiva. Atualmente, Teresa Taquechel coordena o projeto “Te espero lá no Cacilda”, desenvolvido no Teatro Cacilda Becker/Funarte, no Rio de Janeiro, mantém parceria com o projeto Musidança da UFRJ e integra o corpo associado da Escola Angel Vianna.
Corpos ímpares não é um livro sobre superação. É um livro sobre criação — sobre o que acontece quando o palco abre espaço para o que é diferente e descobre, nessa diferença, uma poética inteira.
Serviço
- Título: Corpos ímpares – Uma expressão da singularidade na dança
- Autora: Maria Teresa Taquechel y Saiz
- Editora: Summus Editorial
- Páginas: 192 (17 x 24 cm)
- ISBN: 978-65-5549-195-1
- Preço: R$ 88,60 | E-book: R$ 53,20
- Atendimento ao consumidor: (11) 3865-9890
- Site: www.gruposummus.com.br

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