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O livro que nasceu de um estupro coletivo aos 17 anos

Alice Puterman transforma seis anos de trauma em poesia visceral. “Candura” chega à Flip 2026 como testemunho de sobrevivência feminina e saúde mental.

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Há livros que nascem da vontade de contar uma história. Outros, da necessidade de continuar respirando. Candura, primeiro livro de Alice Puterman pela editora TAUP (Toma Aí Um Poema), pertence ao segundo grupo. Escrito ao longo de seis anos, chega como um testemunho lírico do que significa sobreviver sendo mulher num país onde os índices de estupro não param de crescer.

“Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo à mim mesma termina com estas páginas”, anuncia a autora no prefácio. A frase não é metáfora — é ponto de partida real. O livro começa a ser gestado quando Alice tinha 17 anos e sofreu um estupro coletivo. Pouco depois, a pandemia a encontrou sozinha, e a escrita tornou-se estratégia de elaboração do trauma.

Da dor ao diagnóstico

Com o diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Alice seguiu escrevendo não com intenção de publicar, mas para criar um lugar onde a dor pudesse existir. “Estupro é um assunto sobre o qual não se pode falar. Então, eu espero que meu livro seja esse lugar onde a dor de todas nós pode existir”, explica a autora.

A saúde mental é eixo central da obra. Alice escreve sobre tentativas de suicídio, internações e eletrochoques, e sobre o processo de aprender a conviver com o próprio diagnóstico. “Tentei / me matar / dez vezes / mas / tentei / viver / tao mais / e assim descobri / que estes ossos / brilham / como porcelana chinesa”, registra em um dos poemas finais.

O corpo como território

Nos versos do livro, o corpo feminino aparece como território ocupado e violado, mas também como espaço de resistência. “O primeiro homem que viu meu corpo nu / não disse que ele parecia uma obra de arte / não o tocou com amor / mas, em vez disso / ele se sentiu em casa / trouxe convidados / e deram uma festa”, escreve Alice. A casa é metáfora recorrente: o corpo que precisa ser redescoberto depois da invasão.

“A partir do momento que eu redecorar as paredes, a casa será outra / mas não é / é a mesma que eles arrombaram e depredaram.”

A força da candura

O título, que à primeira vista pode causar estranhamento, é explicado pela própria autora: “Candura: qualidade de quem é ingenuamente crente. Amável. Puro. Mulheres são ensinadas a serem cândidas. E é aí que, teoricamente, mora nossa fraqueza.” Alice, que é autista — grupo esmagadoramente violentado justamente por essa característica —, recusa essa percepção. “Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé.”

A poesia de Alice não oferece respostas fáceis nem se contenta com o lugar de vítima. “A força masculina de nada me interessa — violência. Quero falar de mulheres que levantam carros para salvar suas crias, as que por amor, dão e ganham vida”, afirma no prefácio, dedicando a obra a essas mulheres.

Sobre a autora

Alice Monteiro Puterman nasceu em Petrópolis (RJ) em 2002 e vive atualmente no Rio de Janeiro. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras na UERJ, dedica-se também à especialização na área de inclusão. Autista com mutismo seletivo na infância, aprendeu a escrever aos três anos e desde então as palavras tornaram-se seu principal meio de existência. Atualmente prepara um novo original, também no campo da poesia.

“Eu finalmente me vejo sobrevivente, e não mais vítima. Eu me permito aceitar que a candura é a parte mais forte e vulnerável de mim. E que não há contradição alguma nisso”, conclui a autora.

Candura terá sessão de lançamento na Casa Gueto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026, no final de julho.


Serviço

O livro que nasceu de um estupro coletivo aos 17 anos
Foto: Divulgação
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