Ícone do site Aurora Cultural

O passado como refúgio: Gospodinov no Brasil

Vencedor do International Booker Prize 2023, Refúgio do tempo chega ao Brasil questionando: até onde uma sociedade pode fugir do presente sem se perder?

Instagram
Siga o Aurora Cultural no Instagram
Seguir @auroraculturalportal

A clínica do passado

No centro do romance está Gaustin, alter ego desdobrado do autor e enigmático viajante do tempo. Ele cria uma “clínica do passado” para tratar pacientes com Alzheimer: cada andar do espaço reproduz uma década com fidelidade cirúrgica, permitindo que os pacientes se localizem novamente em suas próprias memórias. O projeto, inicialmente médico, logo escapa ao controle.

Uma Europa em crise começa a enviar não só doentes, mas pessoas saudáveis — e até nações inteiras — em busca de um refúgio temporal. A nostalgia, que começa como terapia, transforma-se em epidemia política. O passado invade o presente e as consequências são perturbadoramente familiares.

“O passado não é apenas o que aconteceu com você. Às vezes é apenas o que você mesmo inventou.” (p. 50)

Nostalgia como crítica política

Gospodinov mergulha em camadas históricas precisas: o socialismo caricato do Leste Europeu, a transição caótica para a economia de mercado e as ilusões que vieram depois. Com ironia mordaz e melancolia lúcida, ele transforma a memória em campo de batalha ideológico. Lembrar ou esquecer deixa de ser uma questão pessoal e passa a ser um ato político.

A obra antecipa — de forma quase premonitória — o ressurgimento de movimentos que vendem versões romantizadas do passado como solução para crises do presente. “E quanto de passado uma pessoa pode realmente suportar?”, pergunta o narrador na página 54. É uma questão que ecoa bem além da ficção.

Quem é Gueorgui Gospodinov

Gueorgui Gospodinov, nascido em 1968 em Yambol, Bulgária, é considerado um dos mais importantes escritores europeus contemporâneos. Poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, formou-se em Filologia Búlgara pela Universidade de Sófia e doutourou-se pelo Instituto de Literatura da Academia de Ciências da Bulgária.

Sua trajetória literária inclui Romance natural (1999), marco da prosa pós-socialista búlgara, e A física da saudade (2012), escrito em resposta a um artigo do The Economist que chamou a Bulgária de “o lugar mais triste do mundo”. Em 2019, o livro foi adaptado para um curta de animação por Theodore Ushev. Seu conto Vaysha Cego foi adaptado para animação indicada ao Oscar em 2017. Em 2024, publicou seu mais recente livro, A morte do jardineiro, sobre morte e luto a partir da experiência com o próprio pai.

Memória, esquecimento e cura

Gospodinov propõe uma inversão incômoda: nem sempre lembrar é o caminho terapêutico. Em determinados contextos, o esquecimento pode ser necessário para que a vida siga em frente. O romance não oferece respostas fáceis — oferece perguntas que permanecem após a última página.

“Tive um sonho do qual consegui reter uma única frase: o monstro inocente do passado. Esqueci meu sonho, a frase permaneceu.” (p. 275)

A publicação no Brasil conta com o apoio financeiro do Fundo Nacional de Cultura da Bulgária, reforçando o compromisso de ampliar o alcance da literatura do Leste Europeu para o público de língua portuguesa.


Serviço

Foto: Divulgação

O passado como refúgio: Gospodinov no Brasil
Foto: Divulgação
Sair da versão mobile