Em meio a perdas e colapso emocional, romance de André Giusti expõe a crise masculina e os bastidores do jornalismo no Brasil recente.
O novo romance de André Giusti parte de um ponto incômodo: o que resta quando estabilidade, afetos e identidade profissional começam a ruir ao mesmo tempo. Em “Só vale a pena se houver encanto”, o autor carioca acompanha a trajetória de Alessandro Romani, jornalista e escritor que tenta se manter de pé enquanto sua vida se fragmenta.
Radicado em Brasília, o protagonista enfrenta uma sequência de perdas que não dão trégua — desemprego, separação e morte atravessam sua rotina. Ao mesmo tempo, ele segue acompanhando momentos decisivos da política brasileira, como as manifestações de 2013 e a queda da primeira presidenta do país. O contraste entre o caos público e o colapso íntimo dá o tom da narrativa.
Uma crise que não é só individual
Mais do que um retrato pessoal, o romance se insere em um debate mais amplo. A crise vivida por Alessandro expõe fissuras na ideia tradicional de masculinidade, especialmente diante da dificuldade dos homens em lidar com vulnerabilidade e expressar emoções.
Pai de três meninas, divorciado e lidando com os primeiros sinais do envelhecimento, ele questiona expectativas que moldaram sua geração. A precarização do jornalismo, a pressão por desempenho e o esvaziamento de vínculos afetivos ampliam esse cenário de desgaste.
É nesse contexto que a terapia surge como um espaço central. Não como solução simples, mas como enfrentamento. Um lugar onde o protagonista começa a encarar aquilo que sempre evitou.
“A gente precisa entender que a dor, a decepção, a derrota, o abandono, a frustração, o fracasso e as perdas fazem parte da vida. A gente trata tudo isso como um fato extracampo, mas não é.”
A fala de Giusti ajuda a entender o eixo do livro: ampliar o sentido da experiência humana sem excluir o sofrimento. Em vez de contornar a dor, o romance a coloca no centro.
Entre o íntimo e o político
Escrito ao longo de onze anos, o livro combina linguagem coloquial com momentos de forte densidade poética. Esse equilíbrio sustenta uma narrativa que oscila entre o cotidiano e reflexões profundas, sem perder ritmo.
A orelha, assinada por Stella Maris Rezende, destaca justamente essa tensão: um personagem dividido entre fracassos profissionais, relações amorosas intensas e um amor profundo pelas filhas. Ao mesmo tempo, ele observa o mundo com um olhar crítico e inquieto.
Outros nomes da cena literária também apontam a complexidade do protagonista. Sérgio Tavares vê no romance um mergulho no devir masculino. Já Débora Ferraz aproxima o tom da narrativa ao de Dostoiévski em “Notas do subsolo”, ressaltando o caráter trágico — e por vezes patético — do personagem.
Essa dimensão ambígua é central. Alessandro não é construído como herói nem vítima. Ele erra, hesita e se contradiz. E é justamente nessa instabilidade que o livro encontra sua força.
Ficção e experiência se atravessam
Giusti reconhece que há traços pessoais na construção do protagonista, mas evita reduzir a obra a um exercício autobiográfico. Para ele, Alessandro nasce de uma mistura entre vivência e imaginação.
“Alessandro Romani foi criado a partir da minha costela, certamente, mas ele sou eu e mais tantas pessoas verdadeiras ou fictícias. Se é autoficção que chamam, tudo bem.”
Essa sobreposição de camadas reforça a identificação do leitor. A história não se limita a um indivíduo específico, mas ecoa dilemas compartilhados por muitos homens contemporâneos.
Uma trajetória entre redações e livros
Nascido no Rio de Janeiro, André Giusti construiu carreira sólida no jornalismo antes de consolidar seu percurso literário. Trabalhou em veículos como Rádio CBN, Grupo Bandeirantes, TVE-RJ e TV Justiça. Hoje, atua como assessor de imprensa no Senado Federal e repórter freelancer do #Colabora.
Na literatura, acumula reconhecimento. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 1997 com “Voando Pela Noite, Até de Manhã” e semifinalista do Oceanos em 2024 com “As Filhas Moravam Com Ele”. O novo romance marca seu 11º livro — e o primeiro no gênero.
Suas influências vão da crônica brasileira de Fernando Sabino e Rubem Braga à contundência de autores como Bukowski e John Fante. A musicalidade do rock e do blues também atravessa sua escrita, criando uma cadência própria.
Atualmente, o autor trabalha em um novo livro de contos, ainda sem previsão de lançamento.
Serviço
- Título: Só vale a pena se houver encanto
- Autor: André Giusti
- Páginas: 368
- ISBN: 978-65-80804-41-2
- Gênero: Romance
- Editora: Caos e Letras
- Ano: 2026
- Instagram: https://www.instagram.com/andregiustim68/
- Venda: https://www.caoseletras.com/so-vale-a-pena-se-houver-encanto-andre-giusti/p

