Um livro iniciado na infância, interrompido por décadas e concluído no luto transforma experiência pessoal em narrativa sobre empatia, memória e reconstrução.
O retorno de Augusto Branco ao romance acontece com uma história que carrega o próprio tempo em sua estrutura. Em A Samira e o Deserto, lançado pelo Clube de Autores, o escritor retoma uma ideia que o acompanha desde os 10 anos de idade e que só encontrou forma definitiva após um processo de perda pessoal.
Foi no luto que a história encontrou maturidade para existir.
Tentado na adolescência e novamente por volta dos 20 anos, o projeto foi abandonado em ambas as fases. Faltava vivência. Décadas depois, a morte do pai trouxe não apenas a dor, mas também a linguagem necessária para nomear sentimentos antes difusos. A partir desse ponto, o romance ganhou corpo.
Entre um menino e um homem marcado pelo passado
A narrativa acompanha Arthur, um garoto de origem humilde que se aproxima de uma figura enigmática da vizinhança, o chamado “Velho das Areias”. Aos poucos, o mistério se desfaz: o homem é Guilherme Henrique, paisagista responsável por transformar os jardins da cidade em espaços quase poéticos.
O que começa como curiosidade se torna vínculo. Entre conversas e silêncios, o menino encontra no velho uma espécie de guia, enquanto Henrique revisita, ainda que indiretamente, suas próprias escolhas e perdas.
Uma história de amor que explica o silêncio
Em paralelo, o livro revela outra camada: o passado de Henrique. Surge então a história com Daiana, vivida desde os tempos de universidade. O romance entre os dois é construído com timidez, descobertas e poesia, tornando-se peça central para compreender o isolamento do personagem no presente.
As duas linhas narrativas se entrelaçam. De um lado, a formação de Arthur; do outro, a memória afetiva de Henrique. O resultado é uma fábula contemporânea que observa como experiências moldam identidades e como vínculos podem ressignificar trajetórias.
Entre jardins, perdas e formação de valores
Com linguagem poética, o romance aborda temas como luto, preconceito, respeito à natureza e amadurecimento emocional. A presença simbólica dos jardins e das flores funciona como extensão dos estados internos dos personagens, conectando natureza e subjetividade.
Pela combinação entre acessibilidade e densidade temática, a obra se aproxima de discussões recorrentes no ENEM, especialmente no campo da formação ética e da construção de empatia. A leitura propõe reflexão sem abandonar a narrativa envolvente.
Mais do que um retorno, o livro representa um ciclo completo: uma história pensada por um menino, interrompida pelo tempo e finalizada por um autor atravessado pela experiência. O resultado é um romance que transforma memória em linguagem e perda em permanência.
