Uma menina de dez anos, criada na miséria e faminta por letras, encontra em um intelectual forasteiro sua única porta para o saber — e essa proximidade desperta suspeitas que mudam para sempre os dois destinos.
É a partir dessa trama que Lília Refle constrói “A cor da felicidade”, seu quarto romance. A protagonista, Zulmira, nasce em Itamaraju, no sul da Bahia, e cresce sob ausência de afeto e desejo incessante pelo saber. Diante da negligência materna, ela conhece Afonso Batista, um intelectual 29 anos mais velho, que passa a lhe ensinar gramática e literatura.
A proximidade entre os dois levanta, na cidade provinciana, suspeitas de pedofilia que mudam irreversivelmente o destino de ambos — e levam o leitor a refletir sobre os limites entre afeto, moralidade e violência.
Uma infância que também foi da autora
Embora não seja uma autobiografia, Lília viveu como Zulmira a miséria social e o desejo profundo pelo conhecimento. Nascida em Itamaraju, cidade que inspirou a origem da protagonista, ela é filha de mãe semianalfabeta e uma entre 18 irmãos.
Quando se nasce socialmente miserável, as escolhas são feitas nas ausências, não nas oportunidades.
“Vivemos em um país no qual a educação básica é um privilégio de classe. Eu nasci em 1984 e comecei a frequentar a escola em Itamaraju no início da década de 90. Era uma realidade muito dura. A maior parte das crianças não chegava a ingressar em uma escola. Era absurdamente difícil conseguir uma vaga em uma escola pública”, conta a autora.
Ela relembra que a mãe chegou a dormir na fila do portão da escola por duas noites, para que ela fosse matriculada. “Isso, por si só, já era bastante excludente. Pois a maior parte das crianças começava a trabalhar em tempo integral muito cedo. E a educação era vista como roubo de tempo. Pois ninguém acreditava em uma ascensão através da educação. Eu tive a sorte de ter tido uma mãe que queria mais do que o seu próprio destino para os filhos. Ela sempre dizia: meus filhos vão aprender a ler e escrever de verdade, não como eu”, afirma Lília.
Da fome em Itamaraju às passarelas de São Paulo
Lília começou a trabalhar aos nove anos e viveu, na infância, episódios de fome extrema. Foi descoberta por um olheiro aos 13 anos, migrou para São Paulo como modelo e, mais tarde, estudou Jornalismo, Moda e Letras.
A epígrafe do livro sonha com um país em que qualquer pessoa, independentemente da origem social, possa ler, entender e criticar Foucault — síntese do eixo temático da obra: a desigualdade de acesso à educação no Brasil. Na visão da autora, é essa exclusão que leva Zulmira a idolatrar Afonso Batista como uma espécie de “deus do saber”, em uma trajetória que a transforma em uma figura incompreendida — “louca, livre e aprisionada”, nas palavras da própria escritora.
Um livro que a autora chama de libelo político
Dedicado “a todas as meninas que se viram impostas a viver no campo do dessaber eterno”, “A cor da felicidade” é, segundo Lília, também um libelo político. A autora afirma esperar que leitoras negras e de origem social pobre reconheçam, na trajetória de Zulmira, a possibilidade de romper com destinos social e racialmente impostos. Já para leitores de outros contextos, o convite é à construção de uma consciência de classe — a capacidade de enxergar a realidade a partir de outras perspectivas.
O lançamento pela Editora Patuá será no dia 8 de agosto, às 17h, no Recipiente Porongo, centro cultural em Botafogo, Rio de Janeiro. Antes disso, a autora fará sessão de autógrafos na Casa Gueto, no dia 23 de julho, às 15h, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Serviço
- Lançamento de “A cor da felicidade”, de Lília Refle
- Data: 8 de agosto, às 17h
- Local: Recipiente Porongo, centro cultural (Rua Pinheiro Guimarães 34), Botafogo, Rio de Janeiro
- Sessão de autógrafos: 23 de julho, às 15h
- Local: Casa Gueto (Rua Benedito Telmo Coupê, 277 – Antiga Rua Fresca, Centro Histórico, Paraty, RJ), na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)


