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Romance policial usa humor ácido para expor racismo estrutural

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Em “Era uma vez em Parpoplanca”, Luiz Fernando Treviso transforma um assassinato em uma cidade fictícia em ponto de partida para discutir racismo estrutural, violência policial e moralismo brasileiro.

O romance de estreia do jornalista e escritor paulista Luiz Fernando Treviso atravessa suspense, drama e humor ácido para deslocar as convenções do policial. Publicado de forma independente pelo Clube de Autores, o livro acompanha a investigação de um crime em Parpoplanca, cidade que parece parada no tempo.

No centro da narrativa está Canduco, detetive negro de black power imponente, chinelos Havaianas e comportamento que contrasta com a tensão do caso: ele se declara apreciador da erva e tem ataques de riso em situações-limite.

“A obra se constrói como um mosaico de histórias que transitam entre o drama e a comédia, com o objetivo de retratar e provocar reflexão sobre o preconceito racial e estrutural presente na sociedade.”

Uma cidade inventada para revelar conflitos reais

Parpoplanca é povoada por personagens marginalizados, entre viciados, negros, orientais e prostitutas. A cidade funciona como um microcosmo satírico da sociedade brasileira, enquanto cada capítulo apresenta vivências e estratégias de sobrevivência diante de um sistema opressor.

Para Treviso, o humor caricatural não suaviza os conflitos. Ao contrário, torna visíveis as contradições das relações sociais e questiona estruturas de poder. O passado de Canduco também conduz a narrativa para a crítica ao racismo estrutural e à violência policial, mostrando o conhecimento das leis como instrumento de enfrentamento à discriminação.

“Acredito que a comédia e o terror são os gêneros que melhor dialogam com esse tipo de abordagem crítica, e por isso procuro mesclar os dois nas minhas narrativas”, afirma o autor.

Do blaxploitation ao grotesco

Cinéfilo, Treviso aponta o blaxploitation como uma referência central para o livro. O movimento cinematográfico estadunidense, surgido nos anos 1970 e conhecido por colocar protagonistas negros em filmes de ação, crime e drama, inspira a construção de “Era uma vez em Parpoplanca”.

O escritor também cita influências de Nelson Rodrigues, Federico Fellini, do cinema trash das décadas de 1970 e 1980 e de nomes como Charlie Chaplin, Jerry Lewis, David Cronenberg, Alfred Hitchcock, Brian De Palma, Dario Argento e George A. Romero. Ele é um dos criadores do podcast “Cineblábláblá” e atua entre cultura, audiovisual e narrativas que se aproximam do grotesco, do trágico e do humor ácido.

Outras histórias em desenvolvimento

Nascido e residente em São Paulo, Luiz Fernando Treviso é jornalista, tem pós-graduação em gestão cultural e em produção audiovisual, além de cursos livres de teatro, cinema e roteiro. Também publicou “Horror sem fala” pelo Clube de Autores e foi selecionado pela Clímax Editorial para a coletânea “Horrores do Brasil: Anos 90”, com o conto “Ostentação”.

O autor trabalha em duas novas obras. “Confissões de uma mente pervertida de um jovem cineasta” acompanha um jovem escritor que investiga a trajetória esquecida do cineasta Rogério Neves, em uma narrativa sobre fama, decadência e autodestruição ambientada entre as décadas de 1970 e 1990. Já “O Ano da Desordem”, em edição, apresenta uma sátira situada em 2019, quando a profecia da vidente Mãe Liná desencadeia fanatismo, violência racista e uma resistência clandestina organizada por motoboys e marginalizados.

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