A proposta de uma tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, incluindo couros, componentes e calçados, provocou reação imediata da Assintecal e acendeu um sinal de alerta em toda a cadeia produtiva. Mesmo ainda em fase de consulta pública, a medida já gera insegurança em um setor que depende diretamente do mercado internacional para manter seu ritmo de produção.
A Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos acompanha de perto o avanço da proposta, que foi anunciada no âmbito da Seção 301 e seguirá em debate até o dia 15 de julho. Até lá, o cenário permanece indefinido, mas os efeitos da incerteza já começam a ser sentidos.
Setor reage à proposta tarifária
Para a superintendente da Assintecal, Silvana Dilly, o movimento dos Estados Unidos levanta preocupações que vão além da economia. Segundo ela, trata-se de uma medida com forte viés político, que impacta um setor já pressionado por diferentes fatores externos.
mais uma vez, o setor demonstra preocupação com uma medida mais política do que econômica
A executiva destaca que a relação comercial entre os dois países não justificaria, sob uma ótica econômica tradicional, a imposição de novas tarifas. Isso porque os Estados Unidos mantêm superávit na balança comercial com o Brasil, o que torna a decisão ainda mais sensível para os exportadores brasileiros.
Efeito indireto preocupa cadeia produtiva
Embora a medida atinja diretamente produtos finais exportados, como calçados e couro, o impacto mais amplo se dá nos bastidores da produção. A indústria de materiais e químicos, representada pela Assintecal, fornece insumos essenciais para calçadistas e curtumes que têm forte presença no mercado norte-americano.
Com a possível elevação de custos para exportação, esses clientes diretos tendem a reduzir pedidos, ajustar volumes ou até rever estratégias comerciais, afetando toda a cadeia. Esse efeito em cascata preocupa especialmente fornecedores que não exportam diretamente, mas dependem da saúde do setor exportador.
Silvana Dilly chama atenção justamente para essa dinâmica:
O impacto se dá, principalmente, de forma indireta, pois nossa indústria de materiais e químicos fornece para importantes calçadistas e curtumes que exportam para os Estados Unidos e serão afetados diretamente pela nova taxa
Momento delicado amplia preocupação
A possível tarifa surge em um contexto já desafiador para o setor calçadista brasileiro. Entre os fatores que pressionam a indústria estão os desdobramentos da guerra no Oriente Médio e a isenção das importações realizadas por meio de plataformas internacionais de e-commerce.
Esses elementos têm alterado a competitividade do mercado, tanto no cenário doméstico quanto internacional. A combinação de custos elevados, concorrência externa e instabilidade geopolítica cria um ambiente complexo, no qual qualquer mudança adicional — como a proposta tarifária — pode gerar efeitos significativos.
Estados Unidos seguem como principal destino
Os dados mais recentes reforçam a relevância do mercado norte-americano para o setor. Entre janeiro e abril, os Estados Unidos importaram 3,8 milhões de pares de calçados brasileiros, volume que representa um crescimento de 7,8% em relação ao mesmo período de 2025.
O desempenho positivo indica uma demanda consistente, que pode ser diretamente impactada caso a tarifa entre em vigor. Uma eventual elevação de preços no mercado norte-americano tende a reduzir a competitividade do produto brasileiro frente a outros fornecedores internacionais.
Exportações de couro já mostram retração
No segmento de couro, os números apontam uma tendência oposta. No mesmo período, os curtumes brasileiros exportaram 3,8 milhões de metros quadrados para os Estados Unidos, registrando queda de 7,8% em comparação ao ano anterior.
Esse recuo sinaliza que o setor já enfrenta dificuldades mesmo antes da possível implementação da tarifa. A nova medida, caso confirmada, pode intensificar esse movimento e ampliar os desafios para os exportadores.
Consulta pública será decisiva
A proposta segue aberta à consulta pública até o dia 15 de julho, etapa que pode influenciar diretamente o desfecho da medida. Até lá, entidades do setor, empresas e demais envolvidos acompanham atentamente os desdobramentos e avaliam possíveis estratégias para mitigar impactos.
O período de consulta também representa uma janela para articulações institucionais e manifestações formais, que podem contribuir para a revisão ou até reversão da proposta. Ainda assim, o cenário permanece incerto, exigindo cautela e planejamento por parte da indústria.
Serviço
- Proposta de tarifa: 25%
- País: Estados Unidos
- Produtos afetados: couros, componentes e calçados
- Consulta pública: até 15 de julho
- Fonte: Assintecal

