Terceiro álbum do Quarteto Enredado transforma ritmos como cateretê e guarânia em linguagem instrumental contemporânea — sem abrir mão das raízes.
Oito anos de pesquisa, três álbuns e uma formação que não existe em nenhum outro grupo do Brasil. O Quarteto Enredado, de Franca (SP), lança em 8 de maio o disco “Fantasia Sertaneja” nas plataformas digitais. O projeto coloca a viola caipira no centro de um diálogo entre tradição sertaneja e criação contemporânea, percorrendo 13 faixas que revelam camadas da música caipira raramente exploradas no formato instrumental.
A formação do grupo já é, por si só, uma declaração estética: viola caipira (Ronaldo Sabino), violão (Claryssa Pádua), guitarra (Daniel R. Palermo) e baixo acústico (Gabriel Terra) representam diferentes tradições musicais brasileiras reunidas num mesmo conjunto de cordas dedilhadas. O resultado é uma sonoridade que não encontra paralelo direto no cenário da música instrumental do país.
Reinvenção, não releitura
A diferença entre reler e reinventar está no lugar de onde se olha. Claryssa Pádua, violonista e coprodutora do álbum, define bem essa distinção: “Os arranjos e composições do álbum não são como simples releituras, mas processos de reinvenção. A gente parte de músicas muito conhecidas, mas olha para elas de outro lugar, abrindo espaço para novas leituras. Trabalhamos com uma formação única de cordas dedilhadas como um espaço de diálogo, em que cada instrumento traz uma perspectiva. Isso coloca a música caipira, especialmente a viola, dentro de uma linguagem instrumental mais contemporânea, dialogando com outras sonoridades, sem perder a sua essência.”
Gabriel Terra, baixista, idealizador do grupo e responsável pelos arranjos, reforça essa perspectiva ao situar o novo disco dentro de uma trajetória maior: “Esse projeto é muito especial para nós porque busca examinar e expandir as conexões entre os ritmos, melodias e harmonias da música caipira, refletindo sobre uma das partes do nosso primeiro álbum ‘Alma Brasileira’. A ideia é destacar e enaltecer a tradição e a cultura popular brasileira, valorizando um gênero musical de grande importância histórica e cultural para o país.”
A Suíte Caipira e o canto das aves de Franca
Um dos momentos mais inventivos do álbum é a “Suíte Caipira”, composição autoral de Gabriel Terra estruturada em três movimentos, cada um batizado com o nome de uma ave presente na região de Franca. A concepção dialoga com a tradição das suítes europeias — evocando o pensamento formal de Johann Sebastian Bach — sem jamais abandonar o vocabulário rítmico do sertão.
- I. Galinha d’Angola – Cateretê: cheio de nuances melódicas, rítmicas e harmônicas inspiradas no som da galinha-d’angola
- II. Seriema – Guarânia: um canto triste e saudoso, inspirado na canção “Siriema do Mato Grosso”, de Mario Zan e Nhô Pai
- III. Curicaca – Arrasta-pé: alegre, rápido, próximo ao frevo, criando um cenário bucólico onde as curicacas voam pela paisagem
O violeiro Ronaldo Sabino também assina composições autorais no disco. Em “Viola em Festa” e “Porca Mineira”, ele explora a sonoridade da viola em ritmos como a polca paraguaia e o batuque de viola, transmitindo alegria e exuberância instrumental.
Clássicos que continuam vivos
O repertório do disco também revisita obras fundamentais da música brasileira. “Luar do Sertão” (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco), “Moreninha Linda” (Tonico, Priminho e Maninho), “Lampião de Gás” — valsa de Zica Bérgami eternizada na voz de Inezita Barroso — e “Lá na Roça (Mês de Maria)”, de Candeia e Alvarenga, gravada por Martinho da Vila, compõem um painel que demonstra a amplitude e a vitalidade da música sertaneja de raiz.
A faixa-título, “Fantasia Sertaneja”, é um arranjo de Gabriel Terra que reúne três obras de peso: “O Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos, a canção popular “Cuitelinho” e os “Ponteios para piano” de Camargo Guarnieri. A escolha não é casual — é uma declaração sobre as pontes possíveis entre erudito e popular na música brasileira.
Vozes convidadas e matrizes afro-brasileiras
Três artistas ampliam as dimensões do álbum com participações especiais. O cantor Ayrton Montarroyos aparece em “Bandeira do Divino” (Ivan Lins e Vítor Martins) e divide “Luar do Sertão” com a cantora e compositora Bia Góes. Já Bia Góes também participa de “Lá na Roça (Mês de Maria)”, ao lado do percussionista Ricardo Valverde. Segundo o grupo, as trajetórias desses artistas trazem ao disco referências de matrizes afro-brasileiras, ampliando o campo de escuta e reafirmando a pluralidade que constitui a música sertaneja.
Oito anos de estrada
Fundado em 2018, o Quarteto Enredado já soma mais de 100 apresentações no Brasil e no exterior. O álbum de estreia, “Alma Brasileira” (2022), entrou na retrospectiva do crítico Solano Ribeiro e o grupo foi selecionado pelo programa “2021 Selector’s Shows” da rádio francesa Kaos Caribou (RKC). Em 2024, realizou a Alma Brasileira World Tour, com shows em Portugal e Espanha, além de lançar o EP “Requiem” e o documentário homônimo.
“Fantasia Sertaneja” foi produzido por Camilo Carrara, gravado no Totem StudioX em março de 2026 e conta com apoio da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do ProAC e do Ministério da Cultura. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Adonias Souza Jr. e Eduardo Garcia.
Serviço
- Lançamento: 8 de maio de 2025, nas plataformas digitais
- Pre-save: https://tratore.ffm.to/fantasiasertaneja
- Grupo: Quarteto Enredado
- Cidade: Franca (SP)
- Formação: Claryssa Pádua (violão), Ronaldo Sabino (viola caipira), Daniel R. Palermo (guitarra), Gabriel Terra (baixo acústico)
- Participações especiais: Ayrton Montarroyos (voz), Bia Góes (voz), Ricardo Valverde (percussão)
- Produção musical: Camilo Carrara
- Arranjos e composições: Gabriel Terra
- Direção artística e musical: Gabriel Terra e Claryssa Pádua
- Gravado em: Totem StudioX, março de 2026
- Apoio: PNAB, ProAC (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo), Ministério da Cultura e Governo Federal

