A fusão entre poética musical e recursos de inclusão redefine o processo criativo no terceiro álbum de estúdio do cearense Berg Menezes, que celebra duas décadas de carreira.
O rompimento com o modelo tradicional de adaptação pauta a chegada de Faísca, Fagulha ou Centelha. Em vez de tratar recursos inclusivos como etapas posteriores de adequação técnica, o compositor, cantor e guitarrista Berg Menezes estruturou a audiodescrição e a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como elementos fundamentais da composição musical.
Assinado em parceria com o produtor Victor Oliveira, o repertório estabelece pontes comunicacionais densas. A pesquisa do projeto foi norteada diretamente pela premissa de criar a partir da vivência de quem experiencia a arte sob outras perspectivas sensoriais.
A música precisava ser chama para queimar a quem se alcança não pela dor, mas pela inquietude.

Imersão além das vibrações mecânicas
O caminho que culminou no disco começou a ser traçado em 2019, quando o músico realizou sua primeira apresentação acompanhado por tradução em Libras durante a Virada Sustentável. O impacto daquela apresentação motivou a integração definitiva da intérprete Vanessa de Assis, que assumiu papel de segunda vocalista no grupo.
Em seguida, nos Laboratórios de Pesquisa do Centro Cultural Bom Jardim, o projeto ganhou densidade ao envolver o Instituto Cearense de Educação de Surdos e o Instituto dos Cegos. A convivência prática desconstruiu a ideia de que o público surdo consome apenas frequências graves e vibrações intensas, abrindo passagem para melodias sutis e arranjos detalhados.
Paralelamente, a audiodescrição foi elaborada de modo poético: os próprios instrumentistas guiam as ambiências e texturas sonoras, dispensando descrições meramente literais.

Mitologias sonoras e o reflexo do olhar
Entre as faixas centrais do trabalho, Fagulha sintetiza esse cruzamento conceitual. Inspirada na lírica da clássica Pavão Misterioso, de Ednardo, a música mobiliza arquétipos como o Querubim, a Fênix e Exú para articular mensagens de transformação e movimento.
A representação visual acompanha a premissa. Concebida pelo artista visual Gilberto Cardoso Jr, a capa partiu de uma fotografia macro da íris do próprio músico, simbolizando a abertura de percepção e o contato ocular com o público. Para novembro, está programada a divulgação do registro audiovisual completo com tradução em Libras.
As gravações foram distribuídas entre as salas do Cabidi Home Studio, SEPASSANDO rec e Troça Estúdio. A instrumentação contou com Ivan Timbó nos teclados, pianos e sintetizadores, Jefferson Juan nas guitarras, Vitor Maia no contrabaixo, Álvaro Abreu na bateria e percussão eletrônica, Artur Guidugli na percussão e Vits nos vocais de apoio, além das participações de Zeca Kalu e de Allan Kardec Filho na viola dinâmica.
Com passagens anteriores pelas formações Relicário e Os Coadjuvantes, além dos EPs Imperfeito (2013) e Vagabundo (2014) e dos discos Pedra (2016) e Qual é a sua Revolução? (2018), a nova obra demarca o amadurecimento estético do artista cearense ao posicionar a acessibilidade como fundamento artístico pleno.
Serviço
- Álbum: Faísca, Fagulha ou Centelha, de Berg Menezes
- Streaming de áudio: http://tratore.ffm.to/qoabxqm
- Registro audiovisual Fagulha: Música e Acessibilidade: https://youtu.be/frA3C9YWxxc