Do beatbox de Menescal à delicadeza de Liana Flores, novos singles de Muca revelam uma bossa nova que atravessa gerações e fronteiras.
A bossa nova, que já nasceu global, volta a cruzar fronteiras de forma surpreendente em “Midnight Lullaby” e “A Beleza de Ser”, novos singles de Muca e Roberto Menescal. As faixas antecipam o espírito do álbum BELEZA, um projeto que não apenas revisita o gênero, mas o reposiciona em diálogo com sonoridades contemporâneas.
Radicado em Londres há 16 anos, Muca encontrou no projeto uma forma de reconexão com o Brasil. Ao lado de Menescal, um dos criadores da bossa nova, ele constrói pontes entre passado e presente, tradição e experimentação.
Um encontro delicado em “Midnight Lullaby”
Lançada em 1º de maio, “Midnight Lullaby” traz a participação de Liana Flores, artista britânico-brasileira que vive um momento de destaque internacional. Com uma base suave de bossa nova e arranjos de cordas, a faixa cria um ambiente íntimo, quase suspenso no tempo.
A música nasce do cruzamento de trajetórias semelhantes. Assim como Muca, Liana também vive entre culturas. Filha de brasileira, ela encontrou na faixa uma maneira direta de se aproximar da sonoridade que sempre orbitou sua identidade.
“Essa música é muito especial para mim, porque representa uma forma de me reconectar com as minhas raízes brasileiras. Trabalhar com o Muca e com o Roberto Menescal — alguém que ajudou a moldar a bossa nova — foi, sinceramente, surreal.”
A interpretação de Liana, marcada pela sutileza, chamou a atenção de Menescal, que destacou a precisão emocional da cantora. A letra, assinada por L.A. Salami, reforça essa atmosfera sensorial ao evocar memórias e pertencimento, com imagens como o “cheiro de casa”.
Ouça “Midnight Lullaby”:
Experimentação e identidade em “A Beleza de Ser”
Se a primeira faixa aposta na contemplação, “A Beleza de Ser” segue outro caminho. Logo na abertura do álbum, a música propõe uma mistura ousada entre bossa nova, beatmaking e elementos eletrônicos.
Interpretada por Ilessi, a canção parte de uma reflexão sobre beleza, mas ganha força ao retratar uma personagem profundamente ligada ao cotidiano do Rio de Janeiro. A letra de César Lacerda traz a figura de uma “filha de Jorge”, conectando espiritualidade, resistência e vida urbana.
O processo criativo também revela momentos inesperados. Um deles surgiu espontaneamente no estúdio, quando Menescal decidiu gravar um beatbox sobre a faixa — um gesto raro que adiciona frescor à composição.
“Ele veio com essa ideia de fazer um beatbox de bossa/samba que absolutamente foi a cereja do bolo da música, mostrando toda a sua genialidade.” — Muca
A base rítmica foi construída com samples digitais por Bruno Buarque, utilizando MPC. Ainda assim, a música preserva um caráter orgânico, equilibrando tecnologia e tradição com naturalidade.
Ouça “A Beleza de Ser”:
BELEZA: um álbum entre mundos
Mais do que um conjunto de faixas, BELEZA se apresenta como um conceito. O álbum nasce da experiência de deslocamento e retorno de Muca, que, após anos no exterior, revisita suas raízes sob uma perspectiva ampliada.
Ao reunir artistas de diferentes origens e gerações, o projeto constrói uma narrativa musical que ultrapassa rótulos. A bossa nova permanece como ponto de partida, mas se expande em direção ao folk, ao soul e à música eletrônica.
A recepção inicial reforça essa proposta. Críticos destacam a capacidade de Muca de traduzir a essência da música brasileira para um público internacional, sem perder autenticidade.
Entre a delicadeza introspectiva e a experimentação rítmica, os novos singles deixam claro: a bossa nova ainda tem muito a dizer — especialmente quando encontra novas vozes dispostas a reinventá-la.


