Aos seis meses de gestação, Carla Cottini protagoniza “La Serva Padrona” e “La Contadina” na estreia da Companhia Brasileira de Ópera de Câmara no Teatro B32.
Radicada em Berlim desde 2019, a soprano ítalo-brasileira abre sua temporada de 2026 no Brasil em um gesto simbólico: ela assume os dois papéis femininos centrais do programa duplo que marca a chegada da nova companhia ao Teatro B32, na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Em cartaz nos dias 21, 22, 23 e 25 de janeiro, o formato double bill reúne dois intermezzos cômicos do século XVIII. Entram em cena “La Serva Padrona”, de Giovanni Battista Pergolesi, e “La Contadina”, de Johann Adolph Hasse, em adaptação inédita nas Américas, concebidos para formações reduzidas e com proposta de maior proximidade entre intérpretes e público.
Humor, poder e atualidade na ópera
Depois de um 2025 de personagens densos, como Zerlina, de “Don Giovanni”, em montagem no Theatro Municipal de São Paulo, e Vivie, de “A Profissão da Senhora Warren”, destaque no Festival de Música Erudita do Espírito Santo, Carla encontra nos intermezzos um território de leveza, sem abrir mão do rigor vocal e da precisão cênica.
Embora ambientadas em contextos distintos — o espaço doméstico e o campo —, as duas obras se aproximam ao colocar mulheres no centro da ação. O humor, a astúcia e o desejo funcionam como motores para inverter relações de poder ao longo das tramas.
“As duas óperas têm esse senso de humor que adoro trabalhar. Serpina (a criada de La Serva Padrona) e Scintilla (a camponesa de La Contadina) são personagens sagazes que falam da relação entre homem e mulher, entre subordinado e subordinador, sempre com muita comicidade. Ou seja, será especial, para mim, poder abrir o ano com duas personagens de tamanha leveza. Também considero especialmente simbólico levar a ópera para um teatro sediado na Faria Lima, para além dos espaços líricos tradicionais. Nesse sentido, a Companhia Brasileira de Ópera de Câmara nasce com uma função social importante, de abrir os ouvidos, o coração e a escuta de um público que talvez tenha, por meio dos dois espetáculos, seu primeiro contato com a ópera”, comemora Carla.
Nova companhia estreia em São Paulo
O convite para integrar o projeto partiu de Vitor Philomeno, idealizador da Companhia Brasileira de Ópera de Câmara. Preparador vocal e agente artístico, ele defende uma proposta de reposicionamento da ópera de câmara no país, com o intérprete no centro da concepção, produções de escala reduzida, alto rigor musical e diálogo direto com o público contemporâneo.
A parceria com o Teatro B32, espaço moderno com capacidade para 490 pessoas, reforça a estratégia de ampliar territórios e estimular novas audiências. A direção cênica é de Mauro Wrona, parceiro recente de Carla em “A Profissão da Senhora Warren”, enquanto a direção musical fica com a jovem maestrina e pianista Giovanna Elias, fundadora e regente da SP Chamber Orchestra.
No palco, Carla divide cena com o baixo-barítono Saulo Javan. Parceiro frequente, ele esteve com a soprano em três montagens diferentes de “Don Giovanni” entre 2013 e 2025.
Gravidez e acolhimento nos bastidores
A temporada acontece em um momento de tranquilidade para a cantora, que entrará no sexto mês de gestação durante as apresentações. Mãe de Sofia, de 3 anos, ela lembra que cantar grávida no primeiro trimestre, na gestação da filha, foi uma experiência menos estável e mais desafiadora.
Agora, Carla destaca o acolhimento recebido como parte do significado do projeto. Segundo a soprano, a maternidade ainda é tratada com pouco naturalidade em parte do meio artístico, o que pode impactar oportunidades de trabalho.
“Todo esse apoio tem um simbolismo enorme, especialmente no Brasil, onde muitas vezes a mulher acaba perdendo oportunidades de trabalho por estar gestando ou ter um bebê pequeno. A Companhia já nasce demonstrando humanidade e sororidade, mostrando que a mulher pode trabalhar e fazer o que quiser mesmo sendo mãe ou prestes a ser. Confio muito no Mauro e estou animada e aberta até para brincar com a gravidez em cena, se essa for a proposta dele. Será divertido e bonito vivenciar esse momento”, conclui a soprano.
Trajetória de Carla e Saulo Javan
Com repertório diversificado, Carla Cottini ganhou projeção ao interpretar personagens como Giulietta (“I Capuleti e i Montecchi”, Bellini), Susanna (“Le Nozze di Figaro”, Mozart), Gilda (“Rigoletto”, Verdi) e Musetta (“La Bohème”, Puccini). Ela também atuou em teatros como o Theatro Municipal de São Paulo, o Teatro Regio di Parma e a Berlin Opera Academy.
Além da ópera, a soprano se apresenta em concertos sinfônicos e música sacra, como solista em obras como a 9ª Sinfonia, de Beethoven, “Krönungsmesse”, de Mozart, e “Gloria”, de Vivaldi. Sua trajetória inclui ainda musicais como “West Side Story”, de Leonard Bernstein, e “My Fair Lady”, de Frederick Loewe, além de formação acadêmica na Espanha, Alemanha e Inglaterra. Mais informações: https://carlacottini.com/
Reconhecido como um dos principais nomes da ópera no Brasil, Saulo Javan soma papéis em obras de compositores como Verdi, Mozart, Rossini, Villa-Lobos, Stravinsky, Richard Strauss, Donizetti e Puccini. Em “La Serva Padrona”, ele interpreta Uberto; em “La Contadina”, dá vida a Don Tabarrano.
Serviço
“La Serva Padrona”, de G.B. Pergolesi, e “La Contadina”, de J.A. Hasse
Com: Carla Cottini e Saulo Javan
Direção musical: Giovanna Elias
Direção cênica: Mauro Wrona
Realização: Companhia Brasileira de Ópera de Câmara e SP Chamber Orchestra
Gênero: ópera de câmara
Idioma: italiano com legenda em português
Duração: 120 min
Datas: 21, 22 e 23 de janeiro, às 20h. 25 de janeiro, às 18h
Ingressos online: https://teatrob32.byinti.com/
Bilheteria: de segunda a sexta, das 14h às 18h, e 1 hora antes de cada evento


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