Ícone do site Aurora Cultural

Duo Orimã encerra trilogia com Sou Yabá e mergulho nas Yabás

duo orima encerra trilogia com sou yaba e mergulho nas yabas featured

O Duo Orimã encerra no dia 3 de julho a trilogia musical dedicada à ancestralidade afro-brasileira com o lançamento de Sou Yabá, releitura da compositora Luiza Lian. O projeto, que começou com Ogum de Ronda em abril e seguiu com Zumbi Bará / Dio Zambi em junho, se consolida como uma narrativa artística que atravessa espiritualidade, memória e identidade por meio de uma linguagem sonora contemporânea.

Mais do que três lançamentos isolados, o trabalho se estrutura como um percurso simbólico. Cada faixa aborda uma dimensão distinta das tradições de matriz africana, conectando universos espirituais e culturais em arranjos que exploram voz, percussão e texturas eletrônicas.

Uma trilogia que constrói narrativa espiritual

Embora independentes, os singles formam um conjunto conceitual que ganha força quando ouvido em sequência. A proposta do Duo Orimã não é apenas revisitar canções, mas criar um diálogo entre elas, revelando conexões entre diferentes manifestações da espiritualidade afro-brasileira.

O que nos interessa não é apenas cantar essas canções, mas perceber como elas dialogam entre si.

Segundo o duo, o percurso passa pela força dos orixás, pela ancestralidade dos Pretos Velhos e pela potência feminina das Yabás. Esses elementos não aparecem apenas como tema, mas como parte estrutural da forma de fazer música e construir sonoridade.

Do ferro de Ogum às águas das Yabás

O primeiro lançamento, Ogum de Ronda, composição de Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, mergulha no universo de Ogum. O arranjo articula tambores tradicionais com elementos eletrônicos, criando uma ponte direta entre passado e presente.

Na sequência, Zumbi Bará / Dio Zambi propõe uma experiência mais imersiva. A união das composições de Rafael Altério, com letras de Paulo César Pinheiro e Celso Viáfora, resulta em uma faixa construída a partir de ciclos percussivos, repetições vocais e atmosferas meditativas que evocam resistência e espiritualidade.

O fechamento com Sou Yabá desloca o foco para as divindades femininas das águas. A releitura da obra de Luiza Lian, originalmente lançada no álbum Azul Moderno (2018), traz uma sonoridade que remete a rios e mares, com pulsação influenciada pelo samba-reggae e uma abordagem mais contemplativa.

Identidade sonora e unidade estética

Apesar das diferenças entre os repertórios, a trilogia mantém uma identidade sonora consistente. Voz e percussão são os pilares centrais, ampliados por camadas vocais, timbres orgânicos e intervenções eletrônicas que constroem paisagens sonoras densas e sensoriais.

A participação de Renato Cortez, responsável pelo baixo elétrico, mixagens e masterizações, contribui para a unidade estética do projeto. O resultado é um trabalho coeso, que sustenta sua diversidade sem perder consistência sonora.

No campo visual, as capas assinadas por Larissa Lima e as fotografias de Rogério Cavalcanti ampliam o universo simbólico da trilogia, dialogando diretamente com os temas de ancestralidade e espiritualidade presentes na música.

Um projeto entre tradição e contemporaneidade

Formado oficialmente em 2025, o Duo Orimã nasce da pesquisa sobre o cancioneiro popular brasileiro e as matrizes afro-brasileiras presentes em manifestações como jongo, congada, samba de roda e bumba-meu-boi. Essa base se traduz em um trabalho que valoriza a tradição oral ao mesmo tempo em que propõe novas possibilidades sonoras.

A espiritualidade ligada à Umbanda também atravessa o projeto, influenciando escolhas estéticas e repertório. O resultado é uma obra que não apenas revisita o passado, mas o reinscreve no presente, criando pontes entre gerações e linguagens.

Com a trilogia, Lu Starzynski e Nando Altenfelder apresentam um projeto que reafirma a música como espaço de encontro entre memória, identidade e invenção, ampliando o diálogo entre tradição e contemporaneidade na cena brasileira.


Serviço

Sair da versão mobile