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Fresno abre nova fase com ‘Carta de Adeus’

Fresno abre nova fase com ‘Carta de Adeus’

Fresno lança ‘Carta de Adeus’, 11º disco de inéditas, com som orgânico, clima visceral e estreia inédita em show no Espaço Unimed.

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A Fresno escreve um novo capítulo em sua trajetória, iniciada em 1999. O trio gaúcho está de volta com Carta de Adeus, que traz dez faixas inéditas e uma canção bônus exclusiva para o disco no formato físico. O trabalho foi apresentado no dia 18 de abril, em um formato especial: um show no Espaço Unimed, em São Paulo, onde o público ouviu o disco na íntegra, em primeira mão, antes da chegada às plataformas digitais nesta sexta-feira, 24 de abril.

Após a turnê de “Eu Nunca Fui Embora”, que percorreu o país e reafirmou a força da Fresno ao vivo, Lucas Silveira, Vavo e Guerra apresentam um trabalho guiado pelo tátil, pelo analógico e pelo orgânico. O álbum não busca atalhos. Pelo contrário, se aproxima do essencial com uma proposta direta e madura.

Produzido por Lucas Silveira, que vem produzindo os discos da banda desde sua saída da Universal em 2012, Carta de Adeus parte de um princípio quase radical: permitir que os instrumentos soem como são. Guitarras soam como guitarras, baterias respiram como baterias e vozes ocupam seu espaço sem camadas excessivas. Diferentemente de trabalhos recentes da banda, o álbum reduz a presença de ferramentas digitais e aposta em uma sonoridade orgânica, com calor de gravação e energia de palco.

A consolidação dessa estética não nasceu do vazio. Ela foi amadurecendo ao longo do processo de composição. Com referências musicais que dialogam com a gênese do rock de linguagem brasileira, a criação do disco incorporou equipamentos analógicos da década de 80, como câmaras de eco e unidades de chorus. Aos poucos, essas ferramentas foram tingindo as músicas com novas texturas. Não se tratava de reproduzir uma estética, mas de permitir que esses recursos moldassem naturalmente a identidade sonora do álbum.

É nesse processo que surge uma das singularidades mais interessantes de Carta de Adeus: uma linguagem musical contemporânea, marcada pela identidade do emocore brasileiro que a Fresno ajudou a consolidar, sintetizada em timbres e atmosferas que remetem ao som que seus integrantes cresceram ouvindo.

Como um desenho atual pintado com tintas de outra época, o disco equilibra forma e memória. A sonoridade nasce do encontro entre o emo, referência primordial da banda, e a herança estética de uma geração que transformou o rock em fenômeno formador de identidade coletiva para milhões de brasileiros.

Essa escolha ganha ainda mais profundidade quando se transporta ao campo da memória afetiva. Ao revisitar essas sonoridades, Lucas Silveira também revisita a si mesmo na adolescência, em Porto Alegre. Levado às festas dos irmãos mais velhos e exposto precocemente a um repertório que misturava descoberta e pertencimento, o jovem criava suas memórias entre pistas improvisadas ao som de bandas como Joy Division, New Order, The Cure, Titãs, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii e OMD.

Décadas depois, esse relicário retorna não como reprodução, mas como fonte de inspiração. Carta de Adeus nasce desse cruzamento entre memória viva e sensibilidade, ganhando novo sentido ao ser revisitadas as referências que ajudaram a formar o olhar da banda.

Fresno Carta de Adeus e a maturidade das novas canções

Terceira faixa do álbum, “Tentar De Novo e De Novo” sintetiza as referências etéreas da new wave dos anos 80 e a sonoridade característica da banda. A canção começa com uma melodia sensível, conduzida por um baixo que sublinha os versos, e chega ao clímax em frases como “eu peço perdão para mim mesmo/ por esquecer quem eu era antes de conhecer você/ eu vou viver pra ver”. A letra traz a força da resiliência que resume quase três décadas de história do grupo.

A faixa-título “Carta de Adeus (BYE BYE TCHAU)” aprofunda essa síntese. Ao incorporar levadas rítmicas pouco usuais dentro do emo, ela sustenta guitarras limpas em momentos tradicionalmente explosivos e explora registros vocais mais graves, deslocando expectativas sem romper com sua base dramática. A catarse continua presente, mas chega por caminhos diferentes.

A quinta faixa marca um fato inédito na história da banda. Pela primeira vez, a Fresno inclui em um álbum de estúdio um cover: “Pessoa”, composição eternizada na voz de Marina Lima. A ideia nasceu das pesquisas musicais de Lucas Silveira sobre os anos 80, que o aproximaram de Dalto, coautor da canção com Cláudio Rabello. Inserida no contexto do disco, a faixa amplia o campo conceitual do trabalho ao trazer temas como identidade e pertencimento.

Ao reinterpretar “Pessoa”, a banda não apenas presta homenagem. Ela incorpora a canção ao seu próprio universo, diluindo fronteiras entre época, repertório e identidade artística. Isso reforça a proposta do álbum de olhar para o passado sem transformar memória em prisão.

Apesar do nome, Carta de Adeus não sugere encerramento. Pelo contrário, o disco aponta para maturidade e expansão. Em vez de resumir o próprio percurso, a Fresno constrói uma forma de compreender o mundo com a maior crueza possível.

Lançado numa época em que processos de gravação são cada vez mais frios e solitários, o novo álbum abriga a voz de muitas pessoas em seus processos. Amigos, colaboradores e sons pouco convencionais em outros trabalhos do grupo ajudam a compor esse ambiente de organicidade real. A banda também foi minuciosamente cuidadosa ao escolher nomes como Camila Cornelsen, na direção criativa e fotografia, Giovanna Cianelli, na direção de arte e design, André Figueiredo, como filmmaker, e Gabriel Rolim, na direção visual do show.

O lançamento ao vivo, no Espaço Unimed, também reforçou a dimensão humana do trabalho. Ao apresentar o álbum antes da disponibilização digital, a banda transformou o palco em um espaço de revelação compartilhada, onde a música acontecia no mesmo instante em que era descoberta. Mais do que um show, tratou-se de um pacto entre a Fresno e seus fãs.

Vivendo seu melhor momento, sendo lembrada e ao mesmo tempo descoberta, a Fresno segue expandindo sua carreira com consistência e respeito à própria história. Em Carta de Adeus, a banda transforma memória viva em hinos que sublimam sem tentar resumir histórias comuns a todos. Ao revisitar traumas com sotaque pessoal e universal, reafirma o que a fez grande sem se prender ao passado.


Serviço

Fresno abre nova fase com ‘Carta de Adeus’
Foto: Divulgação
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