A Orquestra Novo Traço volta a tensionar as fronteiras da música brasileira com o lançamento do segundo EP do projeto NT Sessions, desta vez ao lado de MC Pedrinho. A proposta não é apenas estética: o trabalho transforma o encontro entre o funk e a música orquestral em uma experiência que amplia o alcance e o reconhecimento da produção cultural das periferias.
Com quatro faixas e distribuição via ONErpm, o novo EP consolida a proposta da produtora Novo Traço de criar diálogos inéditos entre universos musicais que historicamente caminharam separados. O resultado é um registro de estúdio que aposta na fusão como linguagem e na ousadia como motor criativo.
Um encontro que rompe padrões
Idealizado por Rafaello Ramundo e conduzido pelo Maestro Carlos Prazeres, o NT Sessions nasce com a missão de questionar limites e propor novas leituras para a música contemporânea. Após a primeira edição, o projeto avança agora com a presença de MC Pedrinho, um dos nomes mais populares e versáteis do funk nacional.
A escolha não é aleatória. A trajetória do artista, marcada por reinvenções e alcance massivo, dialoga diretamente com a proposta da orquestra: ampliar repertórios e desafiar expectativas. Neste novo capítulo, a energia das pistas encontra a densidade dos arranjos sinfônicos, criando um contraste que se transforma em identidade.
Mais do que uma colaboração, o projeto se posiciona como um experimento estruturado — e ambicioso — sobre o futuro da música brasileira. Ao colocar o funk no centro de uma orquestra, a Novo Traço não apenas revisita o gênero, mas também reposiciona seu lugar simbólico dentro da cultura.
O Sonastério como palco criativo
A gravação do EP aconteceu no Sonastério, estúdio localizado nas montanhas de Minas Gerais e conhecido por proporcionar experiências imersivas. O ambiente, afastado da dinâmica urbana, contribuiu para intensificar o processo criativo e favorecer a troca entre linguagens.
Foi nesse cenário que a batida do funk ganhou novas camadas, dialogando com instrumentos tradicionalmente associados à música clássica. A proposta não buscou suavizar o gênero, mas sim expandi-lo, preservando sua força enquanto incorpora novas possibilidades sonoras.
Para MC Pedrinho, a experiência marcou um ponto de virada na carreira:
Cantar acompanhado por uma orquestra sinfônica é algo que eu nunca imaginei quando comecei no funk. É uma emoção inexplicável ver a batida e a realidade da rua ganharem a grandeza dos instrumentos tocados. Esse projeto é muito inovador e, com certeza, marca um divisor de águas, um verdadeiro salto na minha carreira. Mostrar que o funk pode ocupar esses espaços prova que a nossa música não tem limites. Estou muito orgulhoso do que construímos aqui
Quatro faixas, novas leituras
O EP apresenta um repertório que explora diferentes nuances do artista dentro dessa nova proposta estética. Cada faixa funciona como um recorte específico dessa fusão, evidenciando tanto a versatilidade de MC Pedrinho quanto a capacidade da orquestra de reinterpretar estruturas do funk.
A faixa “Nosso amor” assume o protagonismo do projeto, ganhando uma abordagem mais dramática e expansiva com os arranjos da Orquestra Novo Traço. A música sintetiza a essência do EP ao equilibrar emoção, melodia e impacto sonoro.
- Se Prepara
- Gol Bolinha, Gol Quadrado
- Nosso amor
- Cansei de Me Apegar
Uma proposta que vai além do som
Para Rafaello Ramundo, idealizador da Orquestra Novo Traço, o projeto representa mais do que um experimento musical — é uma afirmação cultural. Ao unir o funk a uma formação orquestral, o NT Sessions busca questionar hierarquias históricas dentro da música e reforçar o valor estético das produções periféricas.
O NT Sessions nasceu para provar que as fronteiras entre a música orquestrada e o funk só existem na cabeça de quem quer colocar a arte em caixas. Levar o funk do MC Pedrinho para o universo da Orquestra Novo Traço é a consolidação mais pura dessa visão. O funk é a maior potência estética e cultural das nossas periferias, um dos estilos musicais mais consumidos do mundo. Quando unimos essa energia visceral aos arranjos no estúdio, o que acontece não é um mero experimento, é a criação de um patrimônio musical contemporâneo. O Pedrinho entregou uma genialidade absurda nesse EP e o resultado traduz perfeitamente o Traço da Novo Traço: inovação, coragem e arte com alma
A fala reforça o posicionamento do projeto como uma plataforma de transformação simbólica. Ao ocupar espaços tradicionalmente associados à música erudita, o funk não apenas amplia seu alcance, mas também redefine sua própria narrativa dentro da indústria.
Esse movimento acompanha uma tendência mais ampla de valorização da diversidade sonora e da quebra de barreiras entre gêneros, mas aqui ganha contornos próprios ao partir de uma estrutura cuidadosamente pensada para preservar identidade e promover inovação.
Orquestra urbana e novos caminhos
A Orquestra Novo Traço se define como uma “orquestra urbana”, conceito que orienta suas escolhas artísticas e parcerias. Ao longo de sua trajetória, o projeto tem se dedicado a criar pontes entre o clássico e o contemporâneo, sempre buscando novos formatos e contextos.
Com colaborações anteriores envolvendo nomes como L7NNON e Papatinho, a iniciativa se consolida como um espaço de experimentação dentro da música brasileira. Cada edição do NT Sessions amplia esse repertório e fortalece a proposta de reinvenção contínua.
O novo EP com MC Pedrinho surge, portanto, como mais um passo dentro dessa construção — um registro que não apenas documenta um encontro, mas também aponta para possibilidades futuras.
Ao levar o funk para o universo sinfônico sem diluir sua essência, o projeto reafirma uma ideia central: a música brasileira, em sua diversidade, não precisa de fronteiras para se reinventar.

