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Nenê Trio ressurge em gravação histórica ao vivo

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Um dos capítulos mais intensos da música instrumental brasileira ganha novo fôlego com o lançamento de Sessões Selo Sesc #18: Nenê Trio, registro ao vivo captado no Sesc Pinheiros em 28 de julho de 2010. Disponível nas plataformas digitais a partir de 29 de maio, o álbum resgata uma apresentação que revela Nenê em plena transformação criativa, conduzindo um trio que explorava novos caminhos sonoros com ousadia e liberdade.

Gravado no Teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, o disco documenta um momento decisivo na trajetória do grupo formado por Nenê (bateria), Alberto Luccas (contrabaixo) e Irio Júnior (piano). À época, o trio mergulhava em uma abordagem mais aberta e experimental, marcada pela improvisação coletiva, pela exploração polirrítmica e por estruturas menos convencionais.

Um retrato raro de criação em movimento

Mais do que um registro de show, o álbum funciona como um documento artístico de um processo em andamento. Ao longo das quatro faixas, o ouvinte acompanha a construção de uma linguagem que se consolidaria nos anos seguintes como uma das marcas do Nenê Trio.

Com mais de cinco décadas de carreira, Nenê já havia deixado sua marca em álbuns fundamentais da música brasileira, ao lado de nomes como Hermeto Pascoal, Elis Regina, Milton Nascimento e Egberto Gismonti. Ainda assim, o registro mostra um artista inquieto, em constante reinvenção.

“Foi uma agradável surpresa voltar a escutar a gravação deste show. Senti uma gratidão enorme pela beleza da música que fizemos juntos”

Repertório revela identidade do trio

O disco reúne quatro composições autorais que sintetizam diferentes dimensões da linguagem do grupo. A abertura com Inverno estabelece um clima contemplativo, evidenciando a relação de Nenê com o espaço e o tempo musical.

A faixa também reflete uma escolha estética clara do baterista, que se distancia da velocidade em favor da construção melódica e da respiração musical.

“Sou um baterista que não gosta de tocar rápido. Gosto da sensação de espaço que isso proporciona”

Eu Acho Que Você Devia Comprar o Contrabaixo introduz uma dimensão bem-humorada ao repertório. A composição nasceu de uma conversa real entre Nenê e Alberto Luccas, que na época hesitava entre adquirir um novo instrumento ou uma Caravan antiga — escolha que acabou fazendo.

Na sequência, Qui Jaiss leva o trio a um território mais intenso e veloz, transformando a expressão “que jazz!” em um jogo sonoro que desafia técnica e interação entre os músicos.

O encerramento com Jongo II conecta o universo harmônico do jazz à tradição percussiva brasileira, refletindo experiências vividas por Nenê ao lado de Hermeto Pascoal, sem perder sua assinatura própria.

Energia coletiva e entrosamento

O álbum também evidencia o nível de sintonia entre os integrantes naquele período. Ensaios frequentes e apresentações constantes contribuíam para um entrosamento que se traduz em liberdade e intensidade musical.

“Naquele momento ensaiávamos semanalmente, tocávamos muito juntos e estávamos extremamente afiados. O Nenê Trio sempre teve essa característica da energia muito alta, e isso aparece claramente na gravação”

Essa dinâmica coletiva é um dos pilares do Nenê Trio, criado em 2001 e reconhecido como uma das formações mais inventivas da música instrumental brasileira contemporânea. Atualmente, o grupo segue ativo com Nenê, Alberto Luccas e Edson Sant’Anna.

Trajetória de um protagonista

Natural de Porto Alegre, Realcino Lima Filho, o Nenê, mudou-se para São Paulo em 1966, onde rapidamente passou a integrar o histórico Quarteto Novo — grupo fundamental para a consolidação da moderna música brasileira.

Ao longo da carreira, participou de gravações emblemáticas como Falso Brilhante, de Elis Regina, Clube da Esquina 2, de Milton Nascimento, além de trabalhos marcantes com Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti.

Durante os anos 1980, radicado em Paris, lançou o álbum Bugre, eleito pela crítica francesa um dos dez melhores discos do ano, e colaborou com músicos como Charlie Haden, Kenny Wheeler e Steve Lacy, ampliando ainda mais seu alcance internacional.

Um legado em expansão

Com Sessões Selo Sesc #18, o Selo Sesc não apenas resgata uma apresentação histórica, mas também amplia o acesso à obra de um artista essencial para compreender a evolução da música instrumental brasileira nas últimas décadas.

O lançamento reforça a importância de Nenê como um músico que transformou a bateria em linguagem — não apenas rítmica, mas também composicional e coletiva — abrindo caminhos para novas gerações e reafirmando seu papel como um dos grandes protagonistas da música brasileira.


Serviço

Nenê Trio ressurge em gravação histórica ao vivo
Foto: Divulgação
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