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O disco que nasceu de seis anos e memórias em borrão

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Lina Tag lança Borrões, álbum autoral que transforma memória, identidade e corpo em experiência cênica imersiva — e redefine o lugar da artista amarela no Brasil.

Seis anos. É o tempo que separa a primeira ideia de Borrões do momento em que o disco chegou ao mundo. Não foi um processo linear. Foram ensaios em praças públicas, reuniões online, camadas de escuta e muitas refações. A artista nipo-paulistana Lina Tag e o compositor Romulo Fernandes construíram juntos um trabalho que recusa o acabamento fácil e aposta na memória como matéria-prima.

O resultado é um álbum autoral e autobiográfico que já nasce acompanhado de um espetáculo cênico homônimo, o Borrões Show. Mais do que um lançamento musical, trata-se de uma experiência imersiva que une canção, performance, presença vocal e gestual em uma linguagem que Lina vem desenvolvendo ao longo de sua trajetória multidisciplinar.

Memória que pulsa, incompleta e viva

A própria artista define o disco com precisão cirúrgica: “Borrões é sobre a memória que pulsa — incompleta, sensorial, confusa, mas profundamente viva.” A frase não é apenas uma declaração poética. É uma chave de leitura para entender um projeto que transita entre o íntimo e o coletivo, entre o corpo japonês e o corpo paulistano, entre o que se lembra e o que se esquece.

Borrões é sobre a memória que pulsa — incompleta, sensorial, confusa, mas profundamente viva.

Os temas que atravessam o álbum — pertencimento, vulnerabilidade, identidade — não aparecem como conceitos abstratos. Eles emergem das letras e melodias, e ganham corpo na expressão cênica do espetáculo. Cada música funciona como uma camada de tempo, revelando uma narrativa sensível que só foi possível depois de anos de pesquisa e maturação.

A direção que veio da dança butoh

Para conduzir o show de lançamento, Lina Tag convidou Luciana Elias, artista e pesquisadora da dança butoh há mais de 15 anos. A escolha não é casual. O butoh, forma de dança contemporânea de origem japonesa conhecida por sua fisicalidade radical e expressão visceral, dialoga diretamente com o universo sensorial que Borrões propõe.

Luciana Elias acumula intercâmbios com artistas e ONGs da Europa, América do Sul e África, e é membro do Conselho Internacional de Dança CID-UNESCO. Sua formação inclui trabalho com os mestres Tadashi Endo, Minako Seki, Toshi Tanaka e Zélia Monteiro. No espetáculo, ela assina a Direção Geral e a Direção de Movimento, construindo junto com Lina uma presença de cena que é, ao mesmo tempo, franca e poética.

Uma voz que já tem história

Lina Tag não chega ao mercado sem referências. Ela integra o elenco vocal da animação Eu e Meu Avô Nihonjin, obra com circulação internacional e presença em festivais como o Annecy, um dos mais importantes do mundo no segmento. Recebeu o Prêmio Cawcine de Melhor Cantora pelo clipe Brancos Corais e já passou por espaços como o Sesc e a Casa de Criadores.

Seu trabalho também tem sido objeto de estudos acadêmicos e debates culturais, o que aponta para uma artista que não apenas produz, mas provoca questões. A pesquisa multi-artística que desenvolve incorpora referências da música popular brasileira e da cultura japonesa, criando uma estética sensorial que não tem equivalente fácil no cenário contemporâneo.

O que Borrões representa além da música

Há uma dimensão política no projeto que merece ser nomeada. Diante de um mercado artístico que ainda retrata asiáticos brasileiros de forma estereotipada e superficial, Borrões escolhe o caminho oposto. O disco e o espetáculo ampliam as referências culturais sobre o que pode ser e fazer uma artista amarela LGBT+ em cena no Brasil.

Não se trata de um manifesto panfletário. A força de Borrões está justamente em afirmar essa presença pela via da arte: pelo arranjo sofisticado, pela voz que carrega memória, pelo gesto que não precisa explicar o que sente para ser compreendido. É arte independente que encontra seu lugar sem pedir permissão.


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