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Percussão como linguagem: álbum visual de Bernardo Aguiar

Percussão como linguagem: álbum visual de Bernardo Aguiar

Após 30 anos de estrada, Bernardo Aguiar lança “Káminhos Benaguiá”, obra audiovisual com músicos do Snarky Puppy que reposiciona a percussão no centro da criação contemporânea.

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O percussionista e produtor Bernardo Aguiar chega ao seu primeiro álbum solo com uma proposta que vai além do disco convencional. Káminhos Benaguiá nasce como uma obra audiovisual integrada: som e imagem foram concebidos juntos, desde a origem, como partes de uma mesma linguagem. O lançamento acontece no dia 15 de maio pelo YouTube.

Não se trata de músicas prontas que ganham clipes depois. Cada faixa é uma unidade audiovisual em que o ritmo interfere na montagem, as texturas sonoras encontram correspondência nas imagens e a narrativa se constrói a partir dessa fusão. O resultado são experiências sensoriais completas — não ilustrações visuais de músicas, mas composições em que imagem e som se constroem mutuamente.

30 anos de estrada em um projeto autoral

Bernardo Aguiar acumula uma trajetória densa. Das baterias das escolas de samba cariocas às colaborações internacionais, são mais de três décadas de atuação. Há 20 anos integra o Pife Muderno, grupo fundado por Carlos Malta, referência da música instrumental brasileira. Ao longo desse percurso, colaborou com Guinga, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Martinho da Vila, Roberta Sá, Dave Matthews e Jacob Collier, entre outros.

Káminhos Benaguiá é o momento em que todas essas experiências se organizam em um projeto inteiramente autoral. Bernardo assina composição, arranjo, produção musical, mixagem, filmagem e edição. O processo, iniciado durante a pandemia e desenvolvido ao longo de anos, carrega uma dimensão artesanal que define a linguagem do trabalho: detalhista, orgânica e profundamente pessoal.

Colaborações entre o Brasil e o mundo

O álbum reúne um elenco expressivo. Pelo lado brasileiro, participam Carlos Malta nas flautas, Silvério Pontes no trompete, Antonio Neves no trombone, Aline Paes na voz, Fernanda Santanna na voz, Will Magalhães na guitarra, Yuri Villar nos sopros, Guto Wirtti no contrabaixo, Maria Clara Vale no violoncelo, Gabriel Guinther na marimba e Rodrigo Ferrera no baixo.

No campo internacional, o projeto dialoga diretamente com a cena global. Chris Bullock, saxofonista do Snarky Puppy, aparece na faixa Anhangá Karioká. Michael League, baixista e líder da banda ganhadora do Grammy, participa de Caboclo Snarkyado. A flautista holandesa Floor Polder também integra o trabalho, ampliando ainda mais o alcance estético do álbum.

A percussão como eixo narrativo

Em Káminhos Benaguiá, a percussão não funciona como base rítmica. Ela é o centro de tudo — conduz o som, organiza as imagens, define os cortes e constrói as texturas visuais. Essa escolha reflete uma visão que Bernardo articula a partir de referências como Villa-Lobos, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, seu guru da percussão.

Me inspirei em artistas que constroem ‘mundos musicais’. A galera que de certa forma é ‘arquiteta da música’. São artistas que têm um senso de que a música não é só a música em si, mas que ela extrapola a ideia do som. São artistas que quando você fecha o olho você vê coisas profundas, porque é essa a proposta. Villa-Lobos, Stravinsky, Guinga, Baden Powell, Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, meu guru da percussão Naná Vasconcelos. Tom Jobim, arquiteto de formação, edificava mundos musicais inspirados na natureza brasileira. Bjork, por exemplo, diz que, pra fazer música, se inspira no clima, na água, no sapato que está usando. Livros, filmes etc. Me identifico muito com essa ideia. Música como algo que nasce do mundo, e não só do instrumento

— Bernardo Aguiar

Sons captados em viagens à Amazônia aparecem como matéria composicional. Eles ganham desdobramentos visuais, criando uma espécie de sinestesia: o som sugere cor, movimento e espaço; a imagem reorganiza a escuta. Essa abordagem híbrida já estava presente em trabalhos anteriores como produtor, como Amazônia Subterrânea, de Thiago de Mello, e Corpo Mar, de Aline Paes. Em Káminhos Benaguiá, ela se aprofunda e ganha forma definitiva.

As faixas do álbum

O álbum é composto por cinco faixas audiovisuais, cada uma concebida como um microcosmo com identidade própria:

Em cada uma delas, ritmo, timbre e visualidade constroem sentido juntos. O álbum foi pensado para ser experienciado como um todo, com especial potência em plataformas como o YouTube, onde a integração entre som e imagem se completa.

Em um ambiente dominado pelo consumo rápido e fragmentado, Káminhos Benaguiá propõe o oposto: uma escuta imersiva, próxima da experiência cinematográfica, que exige — e recompensa — atenção integral.


Serviço


Percussão como linguagem: álbum visual de Bernardo Aguiar
Foto: Daniel Lôbo
Percussão como linguagem: álbum visual de Bernardo Aguiar
Foto: Daniel Lôbo
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